Num país onde até os mortos, ao que parece, seguem “ativos” na vida pública, o Tribunal de Contas da União resolveu fazer o óbvio — com atraso digno de repartição: mandou o MEC interromper pagamentos do programa Pé-de-Meia a beneficiários com CPF… do além.

A descoberta, que mistura realismo mágico com contabilidade criativa, revelou que estudantes falecidos entre 2009 e 2025 continuavam, de alguma forma, recebendo incentivos para não abandonar a escola — uma persistência acadêmica que nem os vivos conseguem manter.
Criado em 2024 para combater a evasão escolar e promover igualdade de oportunidades, o programa Pé de Meia agora enfrenta um desafio adicional: distinguir quem ainda está, de fato, frequentando a sala de aula… da eternidade.
Entre planilhas e lápides, o episódio escancara uma velha especialidade nacional: a dificuldade crônica de fazer o básico funcionar, enquanto o extraordinário — como pagar bolsas a fantasmas — segue acontecendo com eficiência quase sobrenatural.
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Há, no Brasil, um vício antigo que não se limita à prática do desvio de recursos públicos, mas se enraíza como um verdadeiro fetiche — uma atração recorrente, quase ritualística, pela transgressão daquilo que deveria ser sagrado: a coisa pública.
Não se trata apenas de corrupção como desvio funcional; trata-se de uma cultura que, em certos momentos da história, naturalizou o saque como método e a esperteza como virtude.
Desde os primórdios coloniais, quando o patrimonialismo confundia o público com o privado — como bem observou Raymundo Faoro ao descrever “os donos do poder” — o Brasil foi sendo moldado sob a lógica de que o Estado não pertence ao povo, mas a quem consegue capturá-lo.
As capitanias hereditárias, a exploração predatória do ouro em Minas Gerais, os contratos escusos do período imperial, o coronelismo da Primeira República: todos são capítulos de uma mesma narrativa, onde o interesse coletivo frequentemente serviu de cenário para ambições particulares.
Essa deformação ética não desapareceu com a modernidade; apenas se sofisticou. Mudam-se os mecanismos, refinam-se os discursos, multiplicam-se as justificativas — mas persiste o impulso de instrumentalizar o público em favor do privado.
E o mais inquietante: não raro esse comportamento encontra tolerância social, quando não admiração velada, como se houvesse uma estética do ilícito bem-sucedido.
Hannah Arendt advertia que “o problema não é que as pessoas sejam más, mas que se acostumem com o mal”.
No Brasil, talvez tenhamos ido além: não apenas nos acostumamos, mas por vezes o revestimos de normalidade, quase de inevitabilidade histórica. O desvio deixa de ser exceção para tornar-se expectativa; a integridade, uma surpresa.
E assim se perpetua uma contradição essencial: uma nação que, em sua Constituição, exalta a moralidade administrativa como princípio, mas que, em sua prática cotidiana, frequentemente a trata como obstáculo. Entre o ideal e o real, instala-se esse fetiche perverso — não apenas pelo ganho ilícito, mas pela sensação de impunidade que o acompanha.
Romper esse ciclo exige mais do que leis ou tribunais.
Exige uma ruptura simbólica, quase civilizatória, com essa herança que nos acompanha desde a fundação.
Pois, enquanto o desvio for visto como oportunidade — e não como falência moral —, permaneceremos presos a uma lógica onde o futuro é continuamente saqueado em nome de um presente curto, imediato e, no fundo, profundamente empobrecido.



Pe de meia do governo anda bastante furado. A sociedade está de sapatos sem meia
Tudo que é feito por esse governo, logo em seguida vem a corrupção.
Quer comprar o pobre com nosso dinheiro. Graças a Deus tá chegando a hora dele sair.