Quando a realidade decide flertar com o absurdo, o roteiro dispensa revisões — ele se escreve sozinho, com requintes de ironia que fariam corar qualquer dramaturgo mediano.

A tão aguardada audiência da CPMI do INSS, vendida como mais um capítulo da cruzada parlamentar pela verdade, acabou convertida em um elegante exercício de ausência.
De um lado, o presidente da Dataprev, Rodrigo Ortiz D’Avila Assumpção, subitamente hospitalizado — porque, afinal, há momentos em que o corpo parece compreender melhor que o próprio espírito o peso de certos compromissos públicos. O estado de saúde não foi informado.
De outro, uma personagem digna de romance contemporâneo: a ex-noiva de um banqueiro, Marta Graeff, residente em Miami, inalcançável não apenas geograficamente, mas quase metafisicamente — um símbolo perfeito da volatilidade das figuras que orbitam o poder e o capital. Simplesmente sumiu e não deixou vestígios.
Assim, o que deveria ser palco de esclarecimentos transforma-se em um teatro de cadeiras vazias. E nelas, curiosamente, repousa uma presença eloquente: a ausência como discurso, o silêncio como estratégia, o adiamento como método.
Há um curioso refinamento na arte de não dizer.
Em ambientes onde a verdade deveria ser convocada com solenidade — como nas comissões parlamentares de inquérito — ela frequentemente é recebida com a polidez fria reservada a visitas indesejadas.
Não se a expulsa abertamente; seria indelicado.
Prefere-se, antes, cercá-la de formalidades, diluí-la em tecnicalidades, adiá-la em compromissos médicos súbitos ou simplesmente perdê-la no labirinto geográfico de um endereço distante.
Depoentes, testemunhas e convidados, cada qual a seu modo, parecem operar sob um mesmo manual tácito: o da sobrevivência narrativa. Responde-se sem responder, comparece-se sem estar presente, colabora-se sem colaborar.
O silêncio deixa de ser ausência e torna-se estratégia; a memória, seletiva; e a verdade, um objeto maleável, moldado ao sabor das conveniências.
Como advertia Nietzsche, “não há fatos, apenas interpretações” — frase frequentemente mal utilizada, mas aqui quase convertida em método de defesa.
O problema, evidentemente, não é apenas retórico; é ético.
Quando a esquiva se torna padrão, instala-se uma corrosão silenciosa no próprio fundamento das instituições. A verdade deixa de ser um compromisso coletivo e passa a ser um risco individual — algo a ser evitado, contornado, neutralizado.
Nesse cenário, a responsabilidade moral se fragmenta: ninguém mente de forma explícita, mas todos contribuem para que a verdade não emerja. E o resultado final é uma espécie de mentira difusa, socialmente compartilhada, juridicamente difícil de capturar e politicamente conveniente de sustentar.
Hannah Arendt já alertava para a banalização da mentira na esfera pública, onde ela deixa de ser exceção para se tornar ferramenta ordinária de gestão da realidade.
Não se trata mais de ocultar fatos, mas de produzir versões suficientemente plausíveis para que a própria ideia de verdade se torne disputável — e, portanto, dispensável.
A ironia é que, nesse jogo, todos parecem ganhar tempo, mas ninguém preserva legitimidade.
O impacto sobre as investigações é devastador, ainda que raramente imediato. Uma apuração que se alimenta de evasivas torna-se lenta, fragmentada, quase arqueológica — dependente de vestígios, inferências e contradições.
O tempo, que deveria servir à maturação da verdade, passa a ser seu adversário. E, ao final, corre-se o risco de produzir não um esclarecimento, mas uma versão possível, aceitável, politicamente digerível — o que, convenhamos, é uma forma sofisticada de fracasso.
No fundo, a grande ironia é que todos os envolvidos parecem temer a verdade como se ela fosse uma ameaça externa, quando, na realidade, ela é a única coisa capaz de sustentar, a longo prazo, a própria ideia de justiça que fingem proteger.
Como escreveu Albert Camus, “a verdade, como a luz, cega; a mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo que valoriza todas as coisas.”
Talvez seja exatamente esse crepúsculo confortável que tantos insistem em prolongar — mesmo que, ao fazê-lo, empurrem a sociedade inteira para uma noite cada vez menos distinguível da própria ignorância.


