Turismo de experiência, dizem. E que experiência: sair do calor político tropical direto para o espetáculo gelado da aurora boreal — tudo, claro, sob a gentil luz (não exatamente natural) de uma benfeitora interessada.

Em janeiro de 2025, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, embarcou com a família rumo à Noruega e à Finlândia para contemplar o céu dançante do Ártico.
Um passeio modesto, avaliado em cerca de R$ 300 mil por família — detalhe quase poético quando se descobre que a conta não foi exatamente dividida entre os viajantes.
Coube à lobista Roberta Luchsinger bancar o espetáculo, numa demonstração de generosidade que faria corar até os mais entusiasmados defensores do livre mercado de favores.
Nos bastidores, o roteiro ganha contornos ainda mais interessantes: Luchsinger, segundo apurações, era financiada por Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Assim, entre um clarão verde no céu escandinavo e outro nos relatórios de investigação, vai se desenhando mais um capítulo do velho enredo nacional — onde as luzes que brilham no horizonte nem sempre vêm do céu.
Há uma ética que se dissolve não no escândalo, mas no hábito.
A troca de favores — esse comércio silencioso de gentilezas interessadas — raramente se anuncia como corrupção; prefere vestir-se de cortesia, de amizade, de “apoio”. No entanto, sob a superfície polida, pulsa uma lógica antiga: a captura do público pelo privado, a substituição do dever pelo débito.
Quando presentes são financiados para garantir interesses, não se trata de generosidade, mas de investimento. O gesto deixa de ser humano para tornar-se cálculo.
E o que se corrompe não é apenas a decisão futura, mas o próprio sentido da função pública, que passa a orbitar não mais em torno do bem comum, mas de compromissos ocultos, firmados à sombra da conveniência.
Montesquieu advertia que “a corrupção de cada governo começa quase sempre pela corrupção dos seus princípios”. E aqui, o princípio violado é elementar: aquilo que pertence a todos não pode ser negociado como se fosse de alguns.
O erário, mais do que um conjunto de cifras, representa a confiança coletiva — frágil, invisível, essencial. Quando essa confiança é dilapidada por relações promíscuas, o dano ultrapassa o financeiro: instala-se uma pedagogia do cinismo, onde o ilícito se normaliza e a virtude se torna ingenuidade.
Há, nesse processo, uma inversão moral sutil e devastadora.
O favor pago hoje exige retorno amanhã; e o retorno, quase sempre, será custeado por terceiros que jamais consentiram — a sociedade. O presente privado transforma-se, assim, em prejuízo público. E o que se vende, no fim, não é apenas uma decisão administrativa, mas a própria ideia de justiça.
Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, lembrava que os maiores desvios nem sempre nascem de intenções grandiosas, mas da repetição acrítica de práticas aceitas.
Talvez resida aí o maior perigo: quando a troca de favores deixa de escandalizar, ela deixa também de ser combatida. E, nesse silêncio confortável, a coisa pública vai sendo lentamente apropriada — não por força, mas por costume.
No fim, a pergunta que permanece não é jurídica, mas existencial: que tipo de sociedade aceita que seus interesses sejam trocados por presentes? Porque toda corrupção, antes de ser um crime, é uma escolha — e toda escolha revela, inexoravelmente, quem nos tornamos.


