Nos bastidores do Palácio do Planalto, o tabuleiro político começa a ser reorganizado — e, desta vez, sem suspense de novela.

O presidente Lula confirmou, com a objetividade de quem já conhece bem o roteiro, que Geraldo Alckmin permanece como seu vice na corrida pela reeleição. Uma peça que não se move, enquanto várias outras se preparam para deixar o jogo.
Ao mesmo tempo, a Esplanada dos Ministérios entra em ritmo de despedida coletiva: pelo menos 14 ministros já arrumam as gavetas de olho nas urnas de outubro, enquanto outros devem seguir o mesmo caminho nos próximos dias, elevando a dança das cadeiras para cerca de 17 saídas.
É o clássico movimento da política brasileira em ano eleitoral — quando cargos cedem espaço a candidaturas e a administração pública vira, ainda que momentaneamente, uma espécie de ante-sala do voto.
Entre permanências estratégicas e saídas calculadas, o governo redesenha sua própria arquitetura.
Porque, no fim, em Brasília, até a estabilidade precisa saber dançar conforme a música — e, em ano de eleição, o ritmo é sempre mais acelerado.
Há, na democracia, uma espécie de sabedoria silenciosa: ela desconfia da eternidade no poder.
Não por ingratidão aos que governam, mas por reconhecer — como quem observa o tempo — que tudo o que permanece demais começa a confundir-se consigo mesmo. Alternar é, portanto, mais do que substituir; é lembrar que o poder não é essência, mas empréstimo.
Montesquieu advertia, com precisão quase cirúrgica, que “todo aquele que detém poder tende a abusar dele”.
A frase não é um ataque ao governante, mas um diagnóstico da condição humana.
Já Norberto Bobbio acrescentava que a democracia não se define apenas por quem governa, mas pela possibilidade real de substituí-lo sem ruptura.
E, nesse gesto aparentemente simples — sair e entrar — reside uma das mais sofisticadas conquistas civilizatórias.
A alternância de poder é, assim, um antídoto contra a ilusão da indispensabilidade. Ela desmonta, com elegância institucional, a narrativa de que alguém ou algum grupo seria insubstituível.
Como bem sustentava Hans Kelsen, a essência da democracia está no procedimento, na regra do jogo que permite a contínua renovação da vontade coletiva. Sem isso, o sistema se petrifica — e o que era escolha vira destino.
De forma quase lúdica, pode-se imaginar a democracia como um palco onde os atores sabem, desde o início, que seus papéis são temporários.
A grandeza não está em permanecer sob os holofotes, mas em saber sair de cena sem apagar as luzes do teatro.
Porque, no fundo, uma democracia saudável não celebra quem fica — ela valoriza, sobretudo, a liberdade de trocar.


