Em meio ao já saturado teatro político nacional — onde acusações graves disputam espaço com discursos ainda mais graves — a Polícia Federal resolveu “dar andamento” à denúncia apresentada pelo deputado Lindbergh Farias contra o relator da CPMI do INSS, Alfredo Gaspar.

A acusação, de natureza extremamente sensível, foi encaminhada à corregedoria da própria PF, que agora analisará, com a habitual liturgia burocrática, se cabe à instituição investigar o caso.
Em outra frente de ataques diretos ao deputado Alfredo Gaspar, a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) resolveu elevar o tom nas redes sociais, relembrando um passado folclórico não tanto distante:
“Deputado, pare de boquejar mole, tome atitude e faça logo o exame de DNA! Todos nós sabemos que há pessoas que têm medo de agulha, e esse pode ser o seu caso. Mas basta que forneças ‘um tiquinho’ da sua saliva. Esse método não é invasivo, é rápido e tão preciso quanto o de sangue (99,99% de eficácia). Não vai doer nadinha, fique tranquilo.”
O Partido Novo apresentou, na segunda-feira (30), uma representação pedindo a cassação do mandato do deputado Lindbergh Farias após ele chamar o relator da CPMI do INSS, Alfredo Gaspar, de “estuprador” durante uma sessão.
Na ação, o partido afirma que o parlamentar agiu de forma “consciente, deliberada e agressiva” ao atacar a honra do relator.
Gaspar nega todas as acusações.
No país em que escândalos frequentemente caminham em câmera lenta e indignações surgem em alta velocidade, o episódio adiciona mais um capítulo ao enredo em que a gravidade dos fatos convive, desconfortavelmente, com a cautela institucional — ou, para os mais céticos, com a conveniência seletiva.
Enquanto isso, a opinião pública assiste, dividida entre o dever de prudência e a já crônica desconfiança.
Há uma diferença abissal — ainda que, por vezes, convenientemente ignorada — entre a denúncia responsável e o denuncismo vazio.
A primeira se ancora em fatos, provas e no compromisso ético com a verdade; o segundo, ao contrário, vagueia no terreno pantanoso da leviandade, onde a palavra é usada não como instrumento de justiça, mas como arma de destruição simbólica.
Hannah Arendt advertiu, com a precisão que lhe era peculiar, que “a mentira deliberada lida com fatos contingentes”, mas seus efeitos podem ser devastadores quando instrumentalizados no espaço público.
Não se trata apenas de um desvio moral: trata-se de um atentado à própria tessitura da realidade compartilhada.
Quando acusações graves são lançadas sem lastro, não se agride apenas o acusado — corrói-se a confiança coletiva, banaliza-se a dor real das vítimas e enfraquece-se o próprio conceito de justiça.
Nietzsche, por sua vez, ao analisar a moralidade das ações humanas, já insinuava que nem toda acusação nasce de um impulso nobre; muitas emergem do ressentimento, da vontade de poder travestida de virtude.
É nesse ponto que o denuncismo irresponsável revela sua face mais inquietante: ele não busca reparar injustiças, mas produzir narrativas convenientes, ainda que ao custo da verdade.
No campo jurídico e ético, essa prática deveria encontrar não apenas reprovação moral, mas consequências concretas.
A ausência de responsabilização transforma o espaço público em um território de impunidade discursiva, onde reputações são lançadas ao descrédito com a mesma facilidade com que se publica um comentário.
Como advertiu Montesquieu, “uma injustiça feita a um é uma ameaça feita a todos” — e isso inclui, evidentemente, a injustiça de acusações infundadas.
Repudiar o denuncismo leviano não é silenciar vítimas reais, como alguns tentam insinuar com oportunismo retórico; é, ao contrário, proteger a dignidade do ato de denunciar.
Pois quando tudo vira denúncia, nada mais é levado a sério. E, nesse cenário, a verdade — já tão fragilizada — deixa de ser um compromisso coletivo para se tornar apenas mais uma versão conveniente dos fatos.


