Grande parte das pessoas, ao ler o título deste texto, automaticamente associará as chuvas como a única solução capaz de reverter as sequelas provocadas pelos longos períodos de estiagem que assolam o sertão nordestino.

Por André Jarsen
“Oh! Deus perdoe este pobre coitado, que de joelhos rezou um bocado, pedindo pra chuva cair sem parar”.
A canção Súplica Cearense, de Luiz Gonzaga, reforça essa crença unitária e exclusiva de que a chuva seria o único caminho para obter esse bem imprescindível para a vida: a água.
Entretanto, a proposta aqui apresentada diverge da linha de pensamento predominante entre grande parte das massas populares, frequentemente negligenciadas em relação a informações e políticas públicas capazes de promover ações, projetos e programas voltados à resolução dessa lamentável condição que contribui para a miséria no sertão nordestino.
Assim, paralelamente à súplica tradicional direcionada “aos céus”, acrescentamos o pedido de benevolência e empenho àqueles que têm condições de amenizar o tormento vivido por esse povo castigado.
Quando nos referimos à Região Nordeste, comumente evocamos uma diversidade de paisagens geográficas que abrangem desde o recorte litorâneo com seus remanescentes coqueirais até cenários de vegetação escassa, moldados pela estiagem.

Outro ponto marcante em grande parte dessa região é o arcaísmo tecnológico, que provoca inúmeras brechas nas relações socioeconômicas influenciadas pelos interesses políticos (BERNARDES, 2007).
Para o desenvolvimento satisfatório do setor agrícola, as condições ambientais figuram entre os principais fatores limitantes e determinantes.
Ao longo do ano, a região apresenta má distribuição das chuvas; sua concentração ocorre apenas entre três e quatro meses, dependendo de condições atmosféricas. Isso é especialmente crítico na zona semiárida, continuamente condenada às secas.

O comprometimento não se restringe à produção agrícola: acarreta prejuízos também à pecuária, reduzindo a geração de emprego e renda, agravando a pobreza e a miséria, e incentivando os processos migratórios para centros urbanos.

A Região Nordeste abrange cerca de 18,27% do território brasileiro, correspondendo a uma área de 1.561.177,8 km². Grande parte desse território (962.857,3 km²) encontra-se na zona denominada Polígono das Secas, que, além de abranger os estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, também inclui parte do estado de Minas Gerais.
De acordo com a Nova Delimitação do Semiárido de 2005, a área territorial passou de 892.309,4 km² para 969.589,4 km², com população estimada em 21 milhões de habitantes.
Os impactos econômicos decorrentes da seca representam prejuízos não apenas para o Nordeste, mas para todo o Brasil. Estima-se que, até 2050, as perdas somem entre 719 bilhões e 3,6 trilhões de reais.
A preocupação com a escassez, a qualidade e a disponibilidade do recurso água é crescente. Instituições nacionais, como o Ministério da Saúde e o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), e internacionais, como a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e a Asociación Interamericana de Ingeniería Sanitaria y Ambiental (Aidis), reconhecem a água como um dos temas mais importantes para discussão neste final de século, conforme reforçado pela Declaração Universal dos Direitos da Água, que defende: “o direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano…”
Embora o Brasil possua importantes reservas de água doce, algumas regiões apresentam escassa capacidade natural de renovação, sofrendo forte influência da urbanização e da industrialização.
A qualidade da água vem sendo comprometida desde os mananciais, devido ao lançamento de efluentes e resíduos, gerando precariedade nos sistemas de abastecimento.
Atento às adversidades climáticas da região, o governo, ao longo da história, tem demonstrado intenção de amenizar as repercussões causadas pela falta de água, por meio de programas que, muitas vezes, permanecem apenas no plano das expectativas, promovendo poucas mudanças reais na vida do semiárido. Exemplo disso é a grande e polêmica obra do Projeto de Transposição do Rio São Francisco.
O projeto pretende captar água do Rio São Francisco e direcioná-la ao semiárido nordestino para assegurar atividades agrícolas, industriais e turísticas, evitar o êxodo rural e fomentar o desenvolvimento local.
Segundo o Ministério da Integração, o Projeto de Integração do Rio São Francisco encontra-se com 90,5% de execução, devendo beneficiar cerca de 12 milhões de pessoas. Iniciado em 2007, se arrasta há mais de uma década e enfrentou inúmeros problemas orçamentários.
A obra, inicialmente orçada em R$ 4,5 bilhões, já recebeu R$ 7,9 bilhões em investimentos, e o orçamento atualizado chega a R$ 8,2 bilhões.
Pouca gente sabe, porém, que o Brasil possui vastas fontes de água doce subterrânea, que estão disponíveis e armazenadas irregularmente em aquíferos. Esse tipo de recurso já é utilizado internacionalmente, e cerca de 263 grandes bacias têm sido analisadas por especialistas.

Entretanto, observa-se que países integrantes do Mercosul se mostram resistentes à gestão compartilhada das águas subterrâneas, apesar de possuírem gigantescos reservatórios hídricos. A falta de debate sobre fontes alternativas, como os aquíferos, dificulta o potencial abastecimento populacional
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, os aquíferos são constantemente reabastecidos graças ao equilíbrio do regime pluviométrico, infiltração, escoamento e evaporação da água.
A qualidade físico-química e bacteriológica dessa água é elevada, devido à proteção natural contra contaminação, dispensando, na maioria dos casos, tratamento físico-químico.
Os volumes de água subterrânea superam os das águas superficiais, sofrem menos com estiagens prolongadas e apresentam menores perdas por evaporação. Além disso, ocupam áreas maiores que rios ou lagoas.
Diante dessa vasta extensão, a perfuração de poços em regiões de grande demanda hídrica torna-se mais acessível.

A superioridade em custos e prazos de execução das obras de captação e transporte de água subterrânea, em comparação às águas superficiais, torna os aquíferos ainda mais vantajosos, especialmente considerando a manutenção simplificada e o custo zero de armazenamento.
O Brasil é contemplado por dois importantes sistemas aquíferos: Alter do Chão e Guarani
Na Hidrográfica Amazônica (centro- norte do Pará e leste do Amazonas), encontra-se o Sistema Aquífero Alter do Chão, ocupando cerca de 312.574 km², com espessura aproximada de 200 m (175 m saturados) e reservas estimadas em 10 km³, com área de ocorrência de 400 km².
Já o Sistema Aquífero Guarani, situado no centro-leste da América do Sul, ocupa 1.196.500 km² e possui reserva estimada em aproximadamente 46.000 km³ (RIBEIRO, 2008).

Diante desse cenário, resta o questionamento:
Será que a súplica do povo nordestino castigado pela seca aos céus deve limitar-se apenas às chuvas? Ou deve abranger a benevolência do poder público, frequentemente envolto em conflitos de interesse?
Sobre o Autor:
Antônio André Jarsen Pereira é, dentre outras titulações acadêmicas, Doutor em Ciências da Saúde pelo Programa de Pós-Graduação em Medicina Translacional – UNIFESP e Professor Universitário de Graduação e Pós-Graduação.
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Excelente abordagem! Na verdade, a súplica do povo do nordeste por agua já foi atendida pelo Eterno. Vide o aquífero da Região Norte, a transposição do Rio São Francisco, a energia solar que pode ser utilizada para o bobeamento de água de poços artesianos, etc. Nosso clamor agora é por JUSTIÇA e pela queda do sistema de corrupção que a todos devora.
Perfeito. Lindo texto