A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a apreensão de lotes falsificados do medicamento Mounjaro e de toxina botulínica (botox), após identificar irregularidades como diferenças visíveis nas embalagens e impressão de baixa qualidade em lotes.

A medida incluiu a proibição de armazenamento, venda, importação, distribuição e uso dos produtos, diante da suspeita de falsificação comunicada pela própria fabricante. Trata-se de ação preventiva para conter riscos sanitários graves à população.
Em tempos de culto à estética e à performance, a saúde não pode ser convertida em mercadoria sem vigilância ética.
A decisão da Anvisa revela mais que uma irregularidade comercial: expõe o perigo de uma cultura que, seduzida por resultados rápidos, por vezes negligencia a origem e a segurança dos produtos que consome.
Quando um medicamento apresenta inconsistências e indícios de falsificação, não se trata apenas de fraude econômica, mas de ameaça concreta à vida.
A medicina funda-se no princípio hipocrático do primum non nocere — primeiro, não causar dano. Um fármaco falsificado pode conter dosagens inadequadas, substâncias desconhecidas ou até ausência do princípio ativo, produzindo desde ineficácia terapêutica até reações adversas graves e irreversíveis.
Como advertia Paracelso, “a diferença entre o remédio e o veneno está na dose”.
Quando essa dose é manipulada por criminosos, o que deveria curar pode envenenar.
Michel Foucault lembrava que “o corpo é o primeiro lugar de exercício do poder”.
Permitir que produtos ilícitos circulem significa deslocar o poder do cuidado para a lógica clandestina do lucro.
A fiscalização sanitária, portanto, não é obstáculo burocrático, mas instrumento civilizatório.
Como ensinou Rudolf Virchow, “a medicina é uma ciência social, e a política nada mais é do que medicina em larga escala”.
Defender a vigilância é defender a vida — e educar para o consumo responsável é parte essencial desse compromisso coletivo.


