Sob o rigor dos protocolos e a liturgia das armas, o Exército Brasileiro celebrou, nesta quarta-feira (16), seus 378 anos com uma formatura no Quartel-General, em Brasília. O apresentador Luciano Huck foi um dos homengeados.

A cerimônia, que reuniu autoridades civis e militares, rememorou as origens da instituição nos combates de Guararapes, em 1648 — episódio frequentemente apontado como o berço simbólico da força terrestre nacional.
Entre continências e condecorações, um nome alheio à caserna ganhou protagonismo: o apresentador Luciano Huck foi agraciado com a Medalha Exército Brasileiro, uma das mais altas distinções da corporação.
Segundo o Centro de Comunicação Social do Exército, a honraria reconhece sua atuação, ao longo de décadas, na ampliação da visibilidade das Forças Armadas junto à sociedade.
Com a presença do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, e do comandante do Exército, general Tomás Paiva, o evento reafirmou não apenas a tradição institucional, mas também uma estratégia contemporânea: a de disputar narrativas no espaço público, onde farda e mídia, cada qual a seu modo, buscam legitimação e proximidade com a opinião pública.
O reconhecimento, quando não se rende à vaidade nem se corrompe pela conveniência, funciona como uma espécie de espelho ético: devolve ao indivíduo a imagem do que ele efetivamente construiu e, ao mesmo tempo, projeta à coletividade um parâmetro do que merece ser valorizado.
Não se trata de aplauso vazio, mas de um gesto simbólico que, ao destacar o mérito, organiza silenciosamente a hierarquia dos esforços humanos.
Aristóteles, ao analisar a virtude, já advertia que a honra é o prêmio natural das excelências morais — não como fim último, mas como sinal público de que a ação encontrou sua medida justa.
Séculos depois, Max Weber observaria que toda ordem social se sustenta, em parte, por formas de reconhecimento que legitimam autoridades e condutas. Sem esse lastro simbólico, o mérito dissolve-se na indiferença, e o esforço tende a se retrair diante da inutilidade percebida.
Contudo, é preciso cautela: reconhecer não é simplesmente premiar, mas distinguir com critério.
Hannah Arendt alertava que, quando os critérios de distinção se perdem, abre-se espaço para a banalização — não apenas do mal, como ela notoriamente analisou, mas também do próprio valor.
Quando tudo é igualmente celebrado, nada verdadeiramente se destaca; e, nesse cenário, o mérito deixa de ser farol para se tornar ruído.
Por outro lado, a ausência de reconhecimento corrói não apenas o indivíduo, mas o tecido coletivo.
O psicólogo William James já insinuava que o ser humano possui uma “fome de consideração”, uma necessidade profunda de ver sua existência confirmada pelo olhar do outro.
Ignorar essa dimensão é negligenciar um dos motores mais potentes da ação humana. Sociedades que falham em reconhecer o mérito tendem a produzir desalento, mediocridade e, não raro, ressentimento.
O desafio, portanto, não reside apenas em reconhecer, mas em fazê-lo com justiça e lucidez.
Como advertia Norberto Bobbio, a credibilidade das instituições depende da coerência entre seus discursos e suas práticas.
Quando o mérito é reconhecido com integridade, ele não apenas engrandece o indivíduo, mas educa o coletivo — sinaliza caminhos, estabelece referências e, de forma quase pedagógica, convida outros a aspirarem ao mesmo nível de excelência.
No fim, reconhecer é mais do que celebrar: é escolher, com responsabilidade, quais valores merecem sobreviver. E toda escolha, como se sabe, é também uma renúncia — inclusive à tentação de transformar distinção em mero espetáculo.


