O Tribunal de Contas da União (TCU) escancarou, em auditoria recente, um retrato incômodo do uso dos voos da Força Aérea Brasileira (FAB): entre 2020 e 2025, R$ 285 milhões foram consumidos em deslocamentos oficiais marcados por falhas de controle, ausência de justificativas e passageiros sem identificação clara.

Segundo a Corte, ao menos R$ 36,1 milhões poderiam ter sido poupados caso voos comerciais tivessem sido priorizados em situações específicas.
O levantamento revela que 25% dos processos simplesmente não foram localizados, enquanto, nos registros disponíveis, faltam explicações objetivas para o uso das aeronaves oficiais.
Mais grave: em 70% dos voos analisados, não há identificação adequada dos passageiros, o que fragiliza qualquer tentativa de fiscalização.
Sem mecanismos internos eficazes para coibir o uso indevido, a FAB — conforme aponta o próprio TCU — limita-se a cumprir solicitações sem avaliar sua legalidade ou necessidade.
O resultado é um sistema que opera à margem da racionalidade administrativa, onde o interesse público parece frequentemente decolar em classe econômica, enquanto privilégios seguem voando em jatos oficiais.
A malversação dos recursos públicos não é apenas um desvio contábil; é, antes, um desvio moral que corrói silenciosamente a própria ideia de República.
Quando o que é de todos passa a ser tratado como extensão do conforto de poucos, o Estado deixa de ser instrumento de justiça e se converte em engrenagem de privilégios. É o velho patrimonialismo — esse vício histórico que, como já analisava Raymundo Faoro, dissolve as fronteiras entre o público e o privado até que ambas se tornem indistinguíveis.
Adam Smith advertia que “não é da benevolência do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração pelo seu próprio interesse”.
No entanto, quando agentes públicos passam a agir sem freios institucionais, o interesse privado deixa de ser regulado pelo mercado e passa a ser financiado pelo contribuinte. O resultado não é eficiência, mas distorção: gasta-se mais, entrega-se menos e naturaliza-se o desperdício.
John Maynard Keynes, frequentemente invocado para justificar a expansão dos gastos públicos, jamais defendeu a irresponsabilidade fiscal.
Ao contrário, pressupunha que o gasto estatal fosse orientado por critérios de utilidade e impacto coletivo. Quando esses critérios são ignorados, o gasto deixa de ser instrumento de desenvolvimento e se transforma em fardo — pressionando a dívida, elevando impostos e corroendo o poder de compra do cidadão comum.
Milton Friedman, por sua vez, foi direto ao ponto ao observar que “ninguém gasta o dinheiro dos outros com o mesmo cuidado com que gasta o seu próprio”.
A frase, simples e quase desconcertante, revela a essência do problema: sem mecanismos rigorosos de controle e responsabilização, o dinheiro público tende a ser tratado com displicência — e, por vezes, com cinismo.
No fim, a conta sempre chega. Ela se materializa no imposto mais alto, no serviço público precário, na inflação que corrói salários e na sensação difusa de injustiça que atravessa a sociedade.
O cidadão paga não apenas com o bolso, mas com a erosão da confiança nas instituições. E sem confiança, como alertava Douglass North, não há instituições sólidas — apenas estruturas formais sustentando práticas informais de apropriação.
Criticar a malversação, portanto, não é um exercício retórico, mas um imperativo ético.
Porque, em última instância, cada recurso desviado do interesse público não representa apenas dinheiro perdido, mas oportunidades negadas — escolas que não se constroem, hospitais que não se equipam, futuros que não se realizam.
É a República, pouco a pouco, sendo consumida por dentro.


