Em Brasília, onde a liturgia do cargo costuma caminhar de mãos dadas com a aritmética política, o deputado Odair Cunha (PT-MG) foi alçado, com confortável folga, ao seleto clube dos quase-ministros do Tribunal de Contas da União.

Com 303 votos — bem acima da “modesta” meta de 257 —, Cunha demonstrou que, no Congresso, maioria simples às vezes vem com gosto de maioria entusiasmada.
A disputa, oficialmente plural, teve aquele charme típico das corridas eleitorais decididas antes da largada: desistências estratégicas de última hora, articulações de bastidor e uma votação secreta que, curiosamente, produziu um resultado bastante previsível.
Elmar Nascimento (União Brasil-BA) ficou com 96 votos, seguido de Danilo Forte (27), Hugo Leal (20) e Gilson Daniel (6) — números que, somados, ajudam mais a compor o cenário do que propriamente a ameaçar o vencedor.
Um passado presente – Segundo reportagem publicada na Revista Veja, em 2017, o então deputado Odair Cunha embolsou R$ 150 000 reais desviados dos cofres da Confederação Nacional do Transporte (CNT), entidade mantida por recursos de contribuições sindicais. Mas não foi o único golpe. O destino final do dinheiro, segundo o ex-vereador petista e delator Alexandre Romano, foi a eleição do diretório estadual do PT mineiro.
Aprovação – Na tarde desta quarta-feira 15), o Senado aprovou a indicação do deputado federal Odair Cunha (PT-MG) para a vaga de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), nesta quarta-feira (15). Foram 50 votos a favor e oito contrários, além de uma abstenção.
Agora, o novo ministro do TCU, Odair Cunha Cunha, o plenário barulhento da Câmara por uma cadeira no TCU, onde se fiscaliza o uso do dinheiro público.
Uma mudança curiosa: de quem vota o orçamento para quem vigia como ele foi gasto. No Brasil, como se vê, a política não perde a chance de revisar a própria lição — ainda que seja o próprio autor da prova.
Há momentos em que o Estado deixa de ser uma construção abstrata — feita de leis, instituições e limites — e passa a adquirir contornos quase domésticos, como se fosse extensão da vontade de grupos, partidos ou indivíduos.
É nesse desvio silencioso que o patrimonialismo se instala: quando o público se dilui no privado, e a República, concebida como res publica, transforma-se em propriedade de poucos.
Raymundo Faoro, ao analisar a formação do Estado brasileiro, já advertia que “o estamento burocrático se apropria do aparelho estatal, governando em nome próprio”.
Não se trata apenas de ocupar cargos, mas de moldar estruturas, distribuir funções e reinterpretar regras conforme conveniências. O aparelhamento, nesse sentido, não é um acidente — é método. Ele opera com a aparência da legalidade, mas com a lógica da captura.
A democracia, que pressupõe alternância, transparência e impessoalidade, começa então a sofrer uma erosão discreta, porém persistente.
O voto permanece, os ritos são mantidos, os discursos evocam a legitimidade — mas o espírito republicano se esvai. Como alertava Montesquieu, “tudo estaria perdido se o mesmo homem, ou o mesmo corpo de principais, exercesse esses três poderes”.
Quando o Estado se fecha sobre si mesmo, blindado por alianças e interesses cruzados, a fiscalização se enfraquece e a confiança pública se dissolve.
O impacto não é apenas institucional; é também moral.
A cidadania passa a conviver com a suspeita permanente de que as regras não valem igualmente para todos. A lei, que deveria ser limite, torna-se instrumento. E o mérito, que deveria orientar a ocupação dos espaços públicos, cede lugar à lealdade política — uma moeda mais estável em ambientes onde o poder se confunde com pertencimento.
Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, observou que os grandes desvios não começam com rupturas dramáticas, mas com pequenas normalizações.
O patrimonialismo contemporâneo, travestido de pragmatismo político, talvez seja uma dessas normalizações perigosas: ele não escandaliza como outrora, porque se tornou rotina. E o que é rotineiro raramente é questionado.
No fim, a República não colapsa de imediato — ela se desgasta.
Perde densidade ética, previsibilidade jurídica e, sobretudo, a crença de que pertence a todos.
E quando isso acontece, o maior risco não é apenas a ineficiência do Estado, mas a indiferença do cidadão.
Porque uma democracia pode sobreviver a crises, mas dificilmente resiste à sensação generalizada de que já não vale a pena defendê-la.


