Entre gravatas alinhadas e discursos solenes, um velho fantasma da política brasileira resolveu ajustar o paletó da memória coletiva. José Guimarães (PT-CE), que um dia viu seu nome circular em manchetes pouco convencionais — no célebre e quase folclórico episódio do “dinheiro na cueca” —, reassume agora o centro do palco institucional como ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais.

A posse, realizada nesta terça-feira (14) no Palácio do Planalto, reuniu figuras de peso como Davi Alcolumbre e Hugo Motta, num cenário onde a liturgia do cargo tenta, mais uma vez, superar a crônica política — essa que, vez por outra, prefere o insólito ao protocolar.
O episódio, que ficou conhecido como ‘caso dos dólares na cueca’, aconteceu no dia 8 de julho de 2005, em meio aos desdobramentos do escândalo do mensalão, e precipitou o afastamento do então deputado José Genoíno da presidência do PT.
Sobre o caso da cueca – Após 16 anos, a Justiça Federal encerrou o processo contra o deputado federal José Guimarães (PT-CE) por suspeita envolvimento no episódio em que um assessor dele, José Adalberto Vieira, foi preso no embarque do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com US$ 100 mil escondidos na cueca e mais R$ 209 mil em uma mala de mão.
O juiz Danilo Fontenele Sampaio, da 11ª Vara Federal do Ceará, reconheceu a prescrição do caso tanto para o parlamentar quanto para o assessor, determinando a extinção de possibilidade de qualquer punição criminal por falta de provas.
Entre sorrisos, cumprimentos e flashes, Brasília demonstra sua habilidade peculiar de transformar escândalos em notas de rodapé e personagens controversos em peças-chave do tabuleiro.
Há, na experiência brasileira, um curioso pacto silencioso com o esquecimento — não o esquecimento acidental, mas aquele quase cultivado, que dissolve escândalos, reinventa biografias e reabre portas como se o tempo, por aqui, tivesse menos densidade moral.
A memória coletiva parece operar mais como maré do que como rocha: avança em indignação e recua em poucos ciclos, deixando para trás vestígios difusos, raramente sedimentados.
O psicólogo Hermann Ebbinghaus, ao estudar a memória, concluiu que “a curva do esquecimento é uma lei natural da mente humana”.
Mas o que se observa no Brasil parece ir além do natural: não é apenas a perda espontânea da lembrança, mas uma espécie de esquecimento socialmente mediado. Sigmund Freud, ao analisar os mecanismos psíquicos, advertiu que “o esquecimento não é uma falha, mas uma forma de repressão”.
Nesse sentido, esquecer pode ser menos incapacidade e mais conveniência — uma recusa coletiva de sustentar o desconforto que certas verdades impõem.
A psiquiatria contemporânea também oferece pistas. Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto, afirmou que “quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”.
No entanto, quando essa mudança se traduz em adaptação passiva — e não em transformação ética —, o risco é a normalização do absurdo. O que ontem chocava, hoje apenas constrange; amanhã, sequer será lembrado.
Do ponto de vista histórico, Eric Hobsbawm observou que “a destruição do passado — ou melhor, dos mecanismos sociais que conectam a experiência contemporânea à das gerações anteriores — é um dos fenômenos mais característicos do final do século XX”.
No Brasil, essa desconexão parece particularmente aguda: a história recente não se consolida como lição, mas como anedota; o escândalo não se cristaliza como advertência, mas como curiosidade.
Pierre Nora, historiador da memória, argumentou que “falamos tanto de memória porque ela já não existe”.
O excesso de informação, paradoxalmente, produz esquecimento — uma saturação que dilui o impacto dos fatos e impede sua elaboração crítica. No cenário brasileiro, essa dinâmica se combina com a volatilidade política e a cultura do imediatismo, criando um terreno fértil para a reincidência de práticas e personagens.
As consequências são profundas.
Uma sociedade que esquece com facilidade compromete sua capacidade de julgar, de exigir e de evoluir. A repetição deixa de ser erro e passa a ser padrão. Como alertou o filósofo George Santayana, em frase frequentemente evocada por historiadores: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.”
No fim, o esquecimento coletivo brasileiro não é apenas um fenômeno psicológico ou cultural — é também um problema político e ético.
Ele revela não só como lembramos, mas, sobretudo, o que escolhemos não lembrar. E nessa escolha silenciosa, talvez resida uma das chaves mais inquietantes da nossa própria história.


