Na crônica brasileira do poder, a lei segue sendo um detalhe — incômodo, mas negociável. Em destaque, uma Senador da República e seu comportamento social.

Na manhã de segunda-feira, na Zona Norte de São Paulo, a realidade ganhou contornos quase caricatos: um senador da República, ao volante de uma Land Rover sem placas, com giroflex digno de filme policial e uma CNH vencida, decidiu que o Código de Trânsito era, no máximo, uma sugestão.
Alexandre Giordano (Podemos-SP), herdeiro político da cadeira de Major Olimpio, foi abordado pela Polícia Militar após desfilar pelas ruas como se ocupasse não um cargo público, mas um salvo-conduto. Ao ser interpelado, preferiu a liturgia do poder à da cidadania: identificou-se apenas como “federal” — uma credencial informal que, ao que parece, dispensaria placas, habilitação e, quem sabe, até o bom senso.
O episódio, que oscila entre o absurdo e o didático, escancara uma velha patologia nacional: a confusão deliberada entre função pública e privilégio privado. No Brasil, não raro, o cargo eletivo vem acompanhado de uma interpretação criativa das normas — sobretudo quando elas se aplicam aos outros.
No fim, restou a cena: o representante da lei sendo confrontado por ela. Um lembrete incômodo de que, por aqui, a República ainda disputa espaço com seus próprios simulacros.
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Há algo de clinicamente revelador quando um homem investido de poder decide, ainda que por alguns minutos, suspender a realidade ao seu redor — como se a lei fosse um adereço cênico e não uma estrutura comum.
A cena não é apenas política; é quase psiquiátrica. Um breve delírio funcional, desses que não chegam a romper com a realidade, mas a distorcem o suficiente para acomodar o próprio ego.
O psiquiatra Theodor Reik, discípulo de Freud, já advertia que “o poder não revela apenas o caráter; ele também amplia as suas fissuras”. E talvez seja isso: não se trata de um desvio isolado, mas de uma amplificação — uma lente de aumento sobre aquilo que, em menor escala, muitos preferem não enxergar em si mesmos.
Na medicina forense, o comportamento ganha outra camada.
O médico-legista francês Alexandre Lacassagne afirmava que “o meio social é o caldo de cultura do crime”.
Em tradução livre para os trópicos: quando o ambiente tolera pequenos privilégios, ele fertiliza grandes transgressões. O giroflex improvisado não é apenas um acessório irregular; é um símbolo luminoso de uma cultura que ainda confunde autoridade com licença.
E há, claro, um toque de comédia involuntária. Porque poucos espetáculos são tão tragicômicos quanto o do cidadão que, confrontado com a lei, tenta invocar um cargo como se fosse um feitiço. “Federal”, diz ele — como quem pronuncia uma palavra mágica esperando que a realidade se curve. Não se curva. No máximo, ri discretamente.
O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung talvez interpretasse o episódio como uma inflação do ego: “onde o poder predomina, falta amor; onde o amor predomina, não há desejo de poder”.
Em termos mais terrenos, quanto maior a necessidade de afirmar superioridade, mais evidente se torna a fragilidade que a sustenta.
O problema, porém, está longe de ser individual. É estrutural, quase pedagógico. A repetição desses gestos — pequenos abusos travestidos de prerrogativa — ensina, silenciosamente, que a igualdade é um conceito decorativo. E toda sociedade que transforma a lei em ornamento acaba, cedo ou tarde, ornamentando a própria injustiça.
Por isso, o combate aos privilégios não é uma cruzada moralista; é uma exigência civilizatória. Não se trata de punir excessos isolados, mas de desativar a lógica que os permite. Como lembrava o médico forense italiano Cesare Lombroso, ainda que controverso em muitos aspectos, “a impunidade é o mais poderoso estímulo ao delito”.
No fim, a ironia é quase poética: aqueles que mais deveriam sustentar a lei são, por vezes, os primeiros a tratá-la como opcional. E é justamente aí que reside o desafio — reconstruir uma cultura em que ninguém precise se anunciar como “federal” para ser respeitado, e onde o respeito não dependa de anúncio algum.


