Quando a noite em Brasília desce ao nível do grotesco — e a conta moral insiste em não fechar. Não leiam para suas crianças; elas devem ser preservadas!

Naquilo que poderia ser apenas mais uma noite discreta na paisagem bem iluminada do Lago Sul, em Brasília, o roteiro descambou para um espetáculo constrangedor — desses que misturam poder, descontrole e um certo senso de impunidade que parece não conhecer hora nem lugar.
O deputado federal Luciano Alves (PSD-PR) protagonizou, na última quarta-feira (25), uma confusão envolvendo uma garota de programa que rapidamente escalou do desacordo financeiro para a agressão verbal — e, segundo relatos, física.
De acordo com testemunhas, o parlamentar teria iniciado uma negociação com a mulher ainda em um restaurante, seguindo depois para o carro dela.
O impasse sobre o valor — R$ 1 mil versus cifras mais infladas no calor da discussão — serviu como estopim para uma troca de ofensas que beirou o surrealismo vulgar. Insultos cruzados, degradação mútua e, no auge da cena, tapas e a participação de uma assessora, que teria aderido ao conflito com agressões e palavras igualmente desmedidas.
O episódio, que mobilizou a Polícia Militar do Distrito Federal, não é apenas um escândalo de ocasião.
Ele expõe, com tintas quase caricatas, a erosão de limites éticos em ambientes onde o poder deveria impor contenção — e não licença.
Entre ironias amargas e frases que parecem escritas por um roteirista de humor ácido, resta um sentimento menos cômico do que trágico: a banalização do respeito, reduzido a uma variável negociável, como se dignidade também tivesse preço — e desconto.
O decoro parlamentar — palavra que soa antiga, quase cerimonial — é, em essência, um dos últimos véus que se interpõem entre a política e a barbárie.
Não se trata de etiqueta, nem de um código superficial de boas maneiras. Trata-se, antes, de uma exigência moral e jurídica que sustenta a própria legitimidade do poder representativo. Quando um parlamentar age, não age apenas por si: carrega consigo a dignidade da instituição que ocupa e, por extensão, a confiança — já tão rarefeita — de uma sociedade inteira.
Como lembrava Montesquieu, “a corrupção de cada governo começa quase sempre pela dos princípios”.
O decoro parlamentar, nesse sentido, é um desses princípios fundantes: ele delimita o comportamento esperado daqueles que legislam em nome do povo. No ordenamento jurídico brasileiro, essa exigência não é meramente retórica.
A Constituição Federal, em seu artigo 55, prevê a perda do mandato para o parlamentar cujo procedimento seja incompatível com o decoro, enquanto os regimentos internos das Casas Legislativas detalham condutas que atentam contra a dignidade do cargo.
Há, portanto, uma moldura legal clara: o mandato não é um salvo-conduto para o arbítrio, mas um compromisso permanente com a honra pública.
E, no entanto, como tantas estruturas normativas no Brasil, o decoro parece oscilar entre a solenidade do texto e a fragilidade da prática.
Hannah Arendt advertia que “a autoridade perdeu sua validade porque foi desprovida de seu fundamento mais importante: o reconhecimento”.
Quando o comportamento de representantes públicos se afasta reiteradamente dos padrões mínimos de civilidade, o que se perde não é apenas a imagem de um indivíduo, mas a própria ideia de autoridade institucional. O Parlamento, que deveria ser o espaço da palavra elevada — do conflito civilizado, da razão argumentativa —, corre o risco de se tornar um palco de impulsos primários travestidos de poder.
Há, ainda, um aspecto mais sutil e talvez mais inquietante: a instrumentalização do decoro.
Em vez de princípio orientador, ele passa a ser arma seletiva, invocada conforme conveniências políticas, aplicada com rigor a uns e indulgência a outros.
Nesse jogo, a ética deixa de ser universal e se torna estratégica. Nietzsche, com sua lucidez desconfortável, já alertava: “aquele que combate monstros deve cuidar para não se tornar também um monstro”.
Quando o decoro é manipulado como instrumento de disputa, ele próprio se degrada — e, com ele, o próprio sentido de justiça.
O resultado é uma espécie de anestesia moral coletiva.
Escândalos que outrora provocariam indignação passam a ser consumidos como episódios triviais, quase folclóricos, dissolvidos no fluxo incessante de notícias. Guy Debord, ao analisar a sociedade do espetáculo, escreveu que “tudo o que era diretamente vivido se esvai na representação”.
O decoro, assim, deixa de ser vivido como valor e passa a existir apenas como encenação ocasional — uma formalidade evocada em discursos, mas raramente incorporada na prática cotidiana.
E é precisamente aí que reside o lamento mais profundo.
A depreciação do decoro parlamentar não é apenas a falha de indivíduos, mas um sintoma de algo mais amplo: a corrosão dos limites que sustentam a vida pública. Quando aqueles que deveriam encarnar a norma a relativizam, a mensagem transmitida é silenciosa, porém devastadora: tudo é permitido, desde que se sobreviva politicamente.
No fim, resta uma pergunta incômoda — quase cínica em sua simplicidade: se o decoro já não constrange, já não orienta e já não pune de forma coerente, o que exatamente ainda o sustenta?
Talvez apenas a memória de um ideal — cada vez mais distante — de que a política poderia, ao menos em aparência, ser um exercício de dignidade.
E, como toda aparência que se desgasta, o risco não é apenas o descrédito, mas o colapso silencioso daquilo que ela fingia proteger.


