Um Mestre em seu tempo

O título da Unidos do Viradouro no Carnaval 2026, ao celebrar Mestre Ciça, 69 anos, como grande homenageado do enredo campeão, ecoa muito além da Sapucaí.

Não se trata apenas de uma consagração artística, mas de um gesto simbólico contra o etarismo — essa forma sutil e persistente de preconceito que reduz o valor humano à contagem cronológica dos anos. Ao exaltar a experiência, o Carnaval reafirma que o tempo não diminui talentos; antes, os amadurece.

Em uma cultura que frequentemente idolatra a novidade e associa juventude à potência, a vitória de um mestre veterano recorda que excelência não é atributo etário, mas existencial. Simone de Beauvoir advertia que “o idoso é visto como outro, como alguém que já não pertence ao mundo dos vivos ativos”. Tal percepção, contudo, revela mais sobre a sociedade que exclui do que sobre quem envelhece.

Quando a Viradouro coloca Mestre Ciça no centro do espetáculo, ela subverte essa lógica e reintegra o envelhecer ao palco da dignidade.

Carl Gustav Jung afirmava que “a tarde da vida deve ter seu próprio significado e não pode ser apenas um apêndice da manhã”. Há, na maturidade, uma profundidade que só o tempo oferece: a síntese das experiências, a escuta mais ampla, o ritmo mais consciente. O mestre de bateria que conduz milhares de ritmistas carrega, em cada batida, décadas de aprendizado — não como peso, mas como fundamento.

Combater o etarismo é reconhecer que cada fase da vida possui sua vocação própria!

Hannah Arendt lembrava que “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos responsabilidade por ele”. Honrar os mais velhos é assumir responsabilidade pela memória, pela tradição e pelo elo entre gerações.

O triunfo de Mestre Ciça nos convida a revisar nossos próprios preconceitos.

A idade não é sentença de obsolescência, mas testemunho de travessia.

Que aprendamos com o compasso da bateria campeã: a vida não se mede em anos, mas em intensidade, contribuição e sentido.

E enquanto houver ritmo, haverá lugar para todos no desfile da existência.

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