Entre filtros, promessas e bisturis improvisados, a ilusão ganhou contornos perigosamente reais.

O influencer Matheus Ricardo de Souza Santos foi preso nesta terça-feira (28/4), acusado de operar um verdadeiro “complexo clínico clandestino” na Baixada Santista, onde se passava por médico para realizar cirurgias estéticas.
Segundo a Polícia Civil, as redes sociais eram o principal instrumento de convencimento: vídeos, depoimentos e promessas sedutoras — como a de “transformar o corpo em 45 dias” — sustentavam uma narrativa de confiança que, na prática, escondia graves riscos biológicos e sanitários.
A investigação aponta que diversos pacientes foram enganados e expostos a procedimentos sem qualquer respaldo técnico ou legal, revelando o lado mais sombrio da estética vendida como espetáculo digital.
Há algo de profundamente inquietante quando a confiança — esse pacto silencioso que sustenta a vida em sociedade — passa a ser mediada por algoritmos, curtidas e narrativas bem editadas.
O caso recente não é apenas um desvio individual, mas um sintoma: a erosão da autoridade legítima e a fragilidade dos mecanismos que deveriam, por princípio, proteger o cidadão do improviso travestido de competência.
O sociólogo Ulrich Beck já advertia que vivemos em uma “sociedade de risco”, na qual os perigos são muitas vezes invisíveis, produzidos pelas próprias estruturas que prometem segurança.
Quando órgãos de controle falham em fiscalizar, certificar e comunicar com clareza quem está apto a exercer determinada função, abre-se um vácuo — e o vácuo, como se sabe, não permanece vazio: ele é rapidamente ocupado por simulacros de autoridade.
Nesse espaço nebuloso, a credencial perde peso e a aparência ganha força.
A médica sanitarista Ligia Bahia, ao analisar o sistema de saúde brasileiro, frequentemente alerta para a desigualdade no acesso à informação e à regulação efetiva, o que amplia a vulnerabilidade da população a práticas ilegais ou de baixa qualidade.
Não se trata apenas de ausência de fiscalização, mas de sua distribuição desigual, muitas vezes mais rigorosa no papel do que na realidade concreta dos territórios.
Do ponto de vista psicológico, Daniel Kahneman ajuda a compreender por que tantos se deixam convencer: “as pessoas confiam excessivamente em narrativas coerentes, mesmo quando baseadas em pouca evidência”.
Em um ambiente digital saturado de imagens de “antes e depois”, a promessa simples e imediata tende a sobrepor-se à prudência complexa. A razão cede lugar ao desejo — e o desejo, quando mal orientado, pode custar caro.
A precariedade dos órgãos de controle, portanto, não é apenas administrativa; é existencial.
Ela coloca o indivíduo diante de uma escolha para a qual nem sempre está preparado: discernir, por conta própria, o que deveria ser previamente garantido por instituições. E quando essa mediação falha, o risco deixa de ser abstrato e se inscreve no corpo — literal e simbolicamente.
No fim, resta uma pergunta incômoda, quase inevitável: quem vigia os vigilantes quando eles já não conseguem vigiar?
A resposta, se existir, exigirá mais do que operações pontuais; exigirá reconstruir a confiança pública, fortalecer a transparência e, sobretudo, reafirmar que, em matéria de vida e saúde, improviso nunca pode ser confundido com alternativa.


