Entre halteres, teorias da conspiração e uma dose generosa de sinceridade pouco diplomática, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu transformar a liturgia do cargo em algo mais… aeróbico.

Em Niterói, diante de um público que talvez esperasse promessas e números, recebeu um incentivo cardiovascular em forma de bronca: diante das dúvidas sobre sua vitalidade — e até da existência de “clones” — Lula não apenas negou, como sugeriu um plano de treino.
Com ironia afiada e humor de academia, o presidente criticou, comentou e, sem muita cerimônia, recomendou hábitos mais saudáveis aos céticos de plantão.
“Esses dias eu tava fazendo ginástica, a Janja filmou e um babaca: ‘Ah, ele não pode fazer isso porque eu tenho 45 anos e não consigo fazer. Ele tem 80 e eu não posso fazer’. Treine, seu puto! Treine, se prepare, beba menos e trabalhe para você ver como você faz!”, relator o presidente Lula.
Entre uma repetição e outra, parece ter ficado claro que, no Brasil de hoje, o debate público oscila entre a política e o personal trainer — e, às vezes, mistura os dois com surpreendente naturalidade.
Há uma silenciosa rebeldia no corpo que se move quando a idade avança.
Enquanto o tempo insiste em cobrar seus tributos — mais lentidão, mais dor, mais limites — o exercício físico surge quase como um gesto de insubordinação: uma recusa digna em aceitar a decrepitude como destino inevitável. Não se trata de negar o envelhecer, mas de dialogar com ele em termos menos resignados.
A ciência já se encarregou de afirmar, com a frieza dos dados, aquilo que a experiência cotidiana confirma: movimentar-se é prolongar não apenas os anos de vida, mas, sobretudo, a vida nos anos.
A atividade física fortalece músculos, preserva articulações, estimula o cérebro e, talvez o mais negligenciado, sustenta a autoestima — esse pilar invisível que frequentemente desmorona na velhice.
Como observou Hipócrates, com a lucidez que atravessa séculos: “Se pudéssemos dar a cada indivíduo a quantidade certa de exercício e alimento, nem em excesso nem em falta, teríamos encontrado o caminho mais seguro para a saúde.”
Mas há algo além da fisiologia. Exercitar-se na velhice é, também, um ato existencial.
É o idoso que caminha pela praça e, a cada passo, afirma: ainda estou aqui. É o corpo que, mesmo marcado pelo tempo, recusa-se a ser apenas memória.
Hannah Arendt, ao refletir sobre a condição humana, destacou a importância da ação como forma de presença no mundo — e, nesse sentido, mover o corpo é também uma maneira de permanecer atuante, visível, participante.
Paradoxalmente, o maior risco da velhice não é a morte, mas a imobilidade — física e simbólica. Quando o corpo para, o espírito tende a acompanhá-lo.
O sedentarismo, nesse cenário, não é apenas um problema de saúde pública; é quase uma metáfora do abandono de si. E é por isso que cada alongamento, cada caminhada, cada esforço — por menor que pareça — carrega consigo uma dimensão de resistência íntima.
No fim, envelhecer com movimento é uma forma de dignidade. Não elimina o peso dos anos, mas os torna mais habitáveis. E talvez seja isso que realmente importe: não a ilusão de juventude eterna, mas a coragem de continuar vivendo, com o corpo que se tem, no tempo que resta, com alguma graça — e, quem sabe, até com um pouco de fôlego.


