Sob a condução do deputado Alfredo Gaspar, foi lido um relatório que mais parece um inventário de suspeitas: 216 nomes alinhados como peças de um quebra-cabeça bilionário, onde aposentadorias e pensões teriam sido tratadas como butim. Como prometido, Alfredo Gaspar não poupou ninguém!

Em meio ao tilintar nervoso dos cofres públicos e ao silêncio constrangido de quem deveria protegê-los, a CPMI do INSS decidiu falar — e falou alto.
Entre parlamentares, empresários e operadores presentes na lista completa, surgem figuras conhecidas — e incômodas —, incluindo Lulinha, filho do presidente, além de banqueiros e lobistas de apelidos quase literários.
Outros investigados e/ou citados pela CPMI escaparam ilesos.
A leitura do relatório final da CPMI do INSS, nesta sexta-feira 27, foi interrompida por um intenso bate-boca entre o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e o relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), após referência crítica, em tom poético, a antigo debate entre os ministros do STF, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso.
Em tom literário e línguagem figurada, após insulto pessoal proferido contra sua honra, o Deputado Alfredo Gaspar disparou contra o deputado petista:
“Olha, me chamou de estuprador. Eu estuprei corruptos como vossa excelência, que roubam o Brasil. Ladrão, corrupto!”, esbravejou com dedo em riste o intrépido deputado Alfredo Gaspar.
O documento chega com pressa, quase como quem sabe que o tempo é curto: o STF já havia baixado o pano, barrando a prorrogação dos trabalhos.
Ainda assim, antes do apagar das luzes, a comissão fez o que pôde — ou o que conseguiu — para deixar registrado que, nesse enredo, os protagonistas indiciados talvez não sejam exatamente heróis.
Há, entre o indiciamento e a punição, um intervalo que não se mede em tempo, mas em densidade moral — um abismo onde os fatos perdem peso, as provas envelhecem e a indignação evapora.
A CPMI, com sua liturgia de nomes e números, ergue o gesto solene de apontar, de acusar, de sugerir que algo foi, de fato, feito contra alguém. Mas punir — ah, punir exige um tipo de realidade que o Brasil há muito aprendeu a contornar com elegância burocrática e cinismo institucional.
Os 216 — ou 226, pouco importa, porque na matemática do esquecimento os números sempre se dissolvem — entram para a galeria dos indiciados como quem entra para um romance inacabado: apresentados com pompa, desenvolvidos com escândalo e abandonados antes do desfecho.
O indiciamento, nesse teatro, não passa de uma vírgula dramática; a sentença, quando vem, é quase sempre um sussurro inaudível ou uma nota de rodapé.
Nietzsche advertiu, com sua habitual falta de delicadeza, que “quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar um deles”.
No Brasil, parece que fomos além: já não lutamos contra monstros — nós os nomeamos, catalogamos, exibimos em relatórios… e depois os devolvemos, com certo respeito institucional, ao convívio social. Afinal, há prazos, recursos, ritos, interpretações, garantias — um labirinto tão sofisticado que a responsabilidade se perde antes mesmo de encontrar a saída.
E assim, entre o anúncio e a consequência, instala-se o vazio.
Um vazio confortável, diga-se, onde todos parecem cumprir seu papel: a comissão investiga, o relatório acusa, a opinião pública se indigna — e o sistema, com sua engrenagem paciente, assegura que quase nada aconteça. Não por falha, mas por método.
No fim, o indiciamento não é o começo da justiça. É, muitas vezes, o seu epitáfio antecipado.
De concreto, mesmo, só os barracos…o que mais atrai a atenção, a audiência e a alegria da turba…


