
Por Ana Luisa Mendes | Coluna O Som das Ideias
Tem uma introdução na música “Uma Vida Só“, do Rappa, que sempre me pega de jeito.
É a voz do artista plástico pernambucano Francisco Brennand dizendo, com toda a calma do mundo, que “a vida sem música seria um exílio total”.
É quase a versão contemporânea e brasileira daquela frase famosa do filósofo Nietzsche: “Sem a música, a vida seria um erro”.
Mas, parando para pensar, de onde exatamente a gente estaria exilado se o mundo de repente ficasse mudo?
A resposta está na banalidade do nosso dia a dia.
O cotidiano moderno é, por natureza, pragmático e acelerado.
Entre as métricas que precisamos bater, o planejamento da semana, a engrenagem da rotina pode facilmente nos engolir.
Sem perceber, passamos a operar no automático.
É nesse cenário que a letra de “Uma Vida Só” entra não apenas como melodia, mas como um manifesto contra a nossa própria anestesia.
Ao tensionar os acordes sociais das ruas, a banda canta sobre a crueldade da desigualdade e a dureza da “selva de pedra“.
A letra nos confronta com o peso da sobrevivência, mas o seu grande trunfo está na urgência vital que carrega a lembrança incômoda e necessária de que temos, afinal, uma vida só.
No meu dia a dia entre os estudos contábeis e as métricas implacáveis do e-commerce, vejo o quanto é fácil reduzir o comportamento humano a números e taxas de conversão.
Passamos horas analisando dados, ajustando campanhas e tentando prever o próximo passo de quem está do outro lado da tela.
Essa hiperracionalidade é, na prática, o exílio de que Brennand fala.
Quando os versos de O Rappa invadem os meus fones de ouvido no meio de uma análise de planilhas, eles quebram a lógica fria do algoritmo.
A música me lembra que, por trás de cada transação, existe uma pessoa pulsando, tentando sobreviver à “selva de pedra” e querendo apenas ver o sol.
Estar exilado, no sentido provocado pela canção, seria viver uma vida reduzida apenas à sua função utilitária, trabalhar, pagar contas, repetir o ciclo.
A letra de O Rappa nos lembra que a vida não pode ser apenas um rascunho de sobrevivência.
Quando damos o “play” no meio de um dia difícil, a música atua como esse sol procurado na canção.
Ela não serve apenas para abafar o barulho lá de fora; ela serve para nos reconectar com o lado de dentro.
Sobre a Autora:
Ana Luisa Mendes é estudante de Ciências Contábeis e atua nas áreas de marketing digital e e-commerce, dedicando-se a entender as engrenagens do comportamento e do consumo na era conectada.
Apaixonada por cruzar cultura e análise social, em “O Som das Ideias” ela investiga o impacto da música em nossas vidas, propondo uma escuta crítica e atenta aos movimentos do universo sonoro.
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Amei essa reflexão do nosso dia a dia !! A correria em meio a tantas responsabilidades e tantos afazeres quando atrelado a uma música realmente ameniza o nosso stress e acalma nossa mente!! Parabéns por essa percepção!!