Em participação no Alt Tabet, do Canal UOL, a Monja Coen desmontou o estereótipo de harmonia absoluta nos mosteiros ao afirmar, com serenidade quase irônica, que conflitos entre monges são não apenas possíveis, mas frequentes.

Nem só de silêncio e iluminação se sustenta a vida monástica.
Segundo a missionária da tradição Soto Zen Shu, a convivência intensa e as diferenças individuais expõem tensões inevitáveis — lembrando que o voto monástico não opera milagres instantâneos sobre a natureza humana.
Ao relatar episódios de embates físicos entre monges, como os registrados na Coreia, Coen provoca uma reflexão incômoda: a espiritualidade não elimina o conflito, apenas oferece ferramentas para enfrentá-lo.
Entre a disciplina e o ego, o mosteiro revela-se menos um refúgio idílico e mais um campo rigoroso de equilíbrio interior, onde a paz, longe de ser um dado, é uma construção diária — e, por vezes, turbulenta.
O estereótipo é uma forma preguiçosa de organizar o mundo — um atalho mental que promete clareza, mas frequentemente entrega distorção.
Ao reduzir o outro a uma imagem fixa, o imaginário coletivo se protege da complexidade, ainda que ao custo da verdade.
Carl Gustav Jung já advertia que aquilo que não reconhecemos em nós mesmos tende a ser projetado no outro; o estereótipo, nesse sentido, não descreve apenas quem é visto, mas revela, sobretudo, quem vê.
Na psicologia social, Gordon Allport afirmou que “o preconceito é uma antipatia baseada em uma generalização inflexível e errônea”.
Essa rigidez, aparentemente funcional, infiltra-se nas estruturas sociais e passa a orientar percepções, decisões e afetos.
O sociólogo Pierre Bourdieu, por sua vez, analisou como tais construções simbólicas se cristalizam em habitus — disposições internalizadas que moldam nosso modo de perceber e agir no mundo sem que sequer nos demos conta.
O estereótipo, portanto, não é apenas uma ideia: é uma engrenagem silenciosa que sustenta hierarquias, legitima desigualdades e naturaliza exclusões.
Já a antropologia, com Claude Lévi-Strauss, tensiona essa lógica ao lembrar que “o bárbaro é, antes de tudo, o homem que acredita na barbárie”.
Ou seja, o impulso de simplificar o outro revela mais sobre nossa incapacidade de lidar com a diferença do que sobre qualquer suposta inferioridade alheia.
Estereotipar é, em última instância, um gesto de defesa diante do desconhecido — uma tentativa de domesticar o caos da diversidade humana.
O problema é que, ao fixar identidades em moldes estreitos, o imaginário coletivo passa a operar como uma prisão simbólica.
Indivíduos deixam de ser sujeitos para se tornarem caricaturas previsíveis, e a sociedade, por sua vez, perde a chance de se reconhecer em sua própria pluralidade.
Entre o conforto da simplificação e o desafio da compreensão, o estereótipo seduz — mas cobra caro: empobrece o olhar, endurece o convívio e limita o próprio horizonte do humano.
Romper com ele exige mais do que informação; exige disposição para o desconforto, para o encontro genuíno e para a revisão constante de nossas certezas.
Afinal, como sugerem psicólogos, sociólogos e antropólogos em uníssono, compreender o outro é, inevitavelmente, começar a desestabilizar a nós mesmos. E talvez seja justamente aí que reside a possibilidade de uma convivência mais lúcida — e menos ilusória.


