Como quem aguarda a abertura de um cofre promissor, o mercado farmacêutico brasileiro assistiu, nesta sexta-feira (20), ao fim da patente da semaglutida — substância por trás de medicamentos que se tornaram quase celebridades nas prateleiras e nas redes sociais, como o Ozempic.

A expectativa de uma enxurrada imediata de versões mais acessíveis, porém, esbarrou na realidade: entre a promessa e a prateleira, há o tempo — e o rigor — da ciência regulatória.
Embora a queda da patente tenha escancarado as portas para concorrentes e preços potencialmente mais baixos, o consumidor ainda precisará exercitar a paciência.
Com 15 pedidos nacionais sob análise da Anvisa e nenhuma aprovação até o momento, a previsão mais otimista aponta para junho como o início de uma nova fase: a chegada das primeiras canetas genéricas.
Até lá, o que se vê é um mercado em compasso de espera — onde a esperança já foi liberada, mas o acesso ainda depende de carimbo.
Em um mundo que avança à velocidade de seus próprios descobrimentos, investir em ciência e inovação não é luxo — é condição de sobrevivência civilizatória.
Cada novo medicamento, cada tecnologia que simplifica a vida cotidiana ou amplia a longevidade humana, nasce de um terreno fértil onde o conhecimento é cultivado com paciência, recursos e visão de futuro. Sem esse compromisso coletivo, a sociedade corre o risco de estagnar não apenas economicamente, mas existencialmente.
O incentivo público é o alicerce que garante continuidade, acesso e equidade; o privado, por sua vez, imprime dinamismo, escala e eficiência.
Quando ambos caminham em harmonia, cria-se um ecossistema capaz de transformar ideias em soluções concretas, alcançando desde os grandes centros urbanos até as margens mais esquecidas.
Como lembrava o economista Mariana Mazzucato, “o Estado não deve apenas corrigir falhas de mercado, mas moldar e criar mercados”, especialmente quando se trata de inovação de alto impacto social.
Há, também, uma dimensão ética nesse investimento.
Negligenciar a pesquisa científica é, em última análise, negligenciar vidas que poderiam ser salvas, sofrimentos que poderiam ser evitados, futuros que poderiam ser mais dignos.
O filósofo contemporâneo Jürgen Habermas já alertava que “o progresso técnico sem reflexão social pode ampliar desigualdades ao invés de reduzi-las”. Por isso, fomentar a ciência não é apenas acelerar descobertas, mas orientar seu propósito.
A qualidade de vida de uma população é, em grande medida, o reflexo de quanto ela valoriza o conhecimento.
Incentivar a pesquisa é apostar na inteligência coletiva como ferramenta de emancipação humana — é reconhecer que cada avanço tecnológico carrega, em si, a possibilidade de tornar o mundo não apenas mais eficiente, mas mais justo, mais saudável e mais humano.


