Em meio a um cenário político ainda tensionado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia o momento mais oportuno para encaminhar uma nova indicação ao Supremo Tribunal Federal. A recomendação de aliados é clara: esperar a poeira baixar.

Nos bastidores, porém, o clima está longe de arrefecer.
Em conversas recentes com ministros do Judiciário, Lula não escondeu a irritação com a articulação que levou ao esvaziamento do nome de Jorge Messias, distribuindo críticas duras não apenas aos protagonistas do movimento, mas também aos que, em silêncio, consentiram com o desfecho.
“O presidente indicou a aliados que deseja indicar Jorge Messias ao STF novamente, mesmo após o Senado ter rejeitado a primeira indicação do ministro da AGU à Corte. A aposta no governo é de que, se reeleito, Lula terá mais força para negociar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a nova indicação de Messias ao STF“, segundo apuração do Colunista Igor Gadelha.
Entre cautela estratégica e ressentimento político, o Planalto segue em compasso de espera — ainda que sob evidente ebulição.
Há um traço recorrente na história do poder: quando a razão recua, o impulso avança — e, com ele, a erosão silenciosa das instituições. O destempero emocional, ainda que humano, torna-se particularmente perigoso quando transborda para o exercício do governo.
Não se trata apenas de estilo ou retórica; trata-se de método decisório. Governar sob a égide da irritação ou do ressentimento é, em essência, substituir o cálculo público pela reação privada.
O jurista Hans Kelsen já advertia que a força do Estado de Direito reside na impessoalidade das normas, não na volatilidade das vontades.
Quando decisões passam a refletir estados emocionais, o princípio da previsibilidade — pedra angular da segurança jurídica — se dissolve.
De modo semelhante, Norberto Bobbio insistia que a democracia não é o regime das convicções exaltadas, mas das regras compartilhadas: “o problema fundamental não é quem governa, mas como governa”. E o “como”, nesse caso, exige contenção, racionalidade e respeito aos limites institucionais.
No campo da ciência política, Max Weber diferenciava a ética da convicção da ética da responsabilidade, advertindo que o governante não pode se dar ao luxo de agir apenas segundo impulsos internos, sem medir as consequências externas de seus atos.
Já Juan Linz, ao analisar crises institucionais, apontava que momentos de instabilidade tendem a se agravar quando lideranças confundem autoridade com reação emocional, tensionando ainda mais o delicado equilíbrio entre os Poderes.
Os impactos sociais desse descompasso são concretos.
A economia reage com desconfiança à imprevisibilidade; investidores retraem-se diante do risco; o cidadão comum, por sua vez, percebe a instabilidade como ameaça difusa ao seu cotidiano.
Mais grave: a linguagem pública degrada-se, autorizando que o conflito substitua o diálogo e que o antagonismo contamine o tecido social.
Em última instância, o destempero no poder não é apenas um desvio de conduta — é uma forma de fragilização institucional.
E instituições frágeis não colapsam de uma vez; desgastam-se lentamente, corroídas por decisões tomadas no calor do instante, mas cujas consequências se estendem no tempo.
Governar, afinal, exige mais do que vontade: exige domínio sobre si mesmo. Porque, quando o poder perde a medida, é a sociedade que paga o excesso.


