Neste 3 de maio, o Brasil relembrou o centenário de nascimento de Milton Santos, geógrafo que transformou a leitura do espaço urbano em uma chave crítica para compreender desigualdades persistentes.

Falecido em 2001, aos 75 anos, Milton Santos permanece como referência incontornável nas análises socioeconômicas contemporâneas, ao expor as engrenagens invisíveis que organizam as cidades.
Sua teoria dos dois circuitos da economia urbana — o superior, intensivo em capital, tecnologia e organização, e o inferior, marcado pela criatividade e pela adaptação cotidiana — revelou uma geografia de contrastes, onde exclusão e inventividade coexistem.
Como observa Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo – USP e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), “é muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir”, o que impulsiona a formação de redes locais de sobrevivência, como quitandas, mercadinhos e pequenos serviços.
Cem anos depois, Milton Santos segue não apenas sendo lido, mas necessário.
Milton Santos não descreveu apenas o mundo; ele o desvelou.
Em sua obra, o espaço deixa de ser cenário e passa a ser argumento — uma construção histórica onde técnica, poder e vida cotidiana se entrelaçam com rigor quase implacável.
Ao analisar a urbanização desigual, Santos não se limitou a cartografar territórios; ele expôs as tensões morais de uma civilização que, como advertiu, “globaliza-se para poucos e fragmenta-se para muitos”.
Sua leitura dos dois circuitos da economia urbana — o superior, hegemônico e tecnicamente sofisticado, e o inferior, inventivo e resiliente — não é apenas uma teoria econômica; é, sobretudo, um diagnóstico existencial. Ali, nas frestas do circuito inferior, pulsa aquilo que Hannah Arendt chamaria de “condição humana”: a capacidade de agir mesmo sob restrições, de reinventar o mundo a partir da necessidade.
Não por acaso, Milton Santos insistia que “o espaço é um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações”, lembrando-nos que não há neutralidade na paisagem — há escolhas, omissões e disputas.
Se, por um lado, o circuito superior encarna o que Zygmunt Bauman descreveu como a fluidez do capital — veloz, desterritorializado e indiferente às raízes —, por outro, o circuito inferior revela a permanência, o vínculo, a insistência quase teimosa da vida em se organizar apesar da escassez.
É nesse contraste que se insinua uma pergunta incômoda: que tipo de progresso é esse que exige, como condição de existência, a exclusão sistemática de tantos?
Milton Santos, ao observar as periferias, não romantizou a pobreza; ele a interpretou como produto histórico, como resultado de decisões políticas e econômicas que, como lembraria Amartya Sen, restringem liberdades substantivas.
Ainda assim, reconheceu ali uma potência: a criatividade social que emerge quando o sistema falha. Uma potência que desafia a lógica dominante e sugere, ainda que timidamente, outras formas de habitar o mundo.
Pensar Milton Santos hoje é confrontar-se com a própria arquitetura da desigualdade contemporânea. É admitir — como ele próprio afirmava — que “há um pensamento único, mas não há um pensamento inevitável”.
Entre o rigor da análise e a inquietação ética, sua obra permanece como um convite: compreender o espaço não apenas para descrevê-lo, mas para transformá-lo.


