Em Brasília, onde CPIs costumam brotar com a mesma frequência que promessas de reforma política — e, muitas vezes, com a mesma expectativa de resultado —, o senador Alessandro Vieira (MDB) anunciou que reuniu mais do que as 27 assinaturas necessárias para tentar abrir uma nova frente investigativa no Congresso. Desta vez, o alvo da lupa parlamentar são os ministros do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, citados no imbróglio envolvendo o Banco Master.

A iniciativa, apresentada na última sexta-feira (6/3), promete colocar no palco institucional um daqueles raros espetáculos políticos em que senadores investigam ministros da Suprema Corte — algo que, em teoria, reforça a separação de Poderes e, na prática, costuma testar os limites da paciência institucional.
Vieira afirma que a ideia é “resgatar a confiança dos brasileiros nas instituições”, assegurando que não há condenação antecipada, apenas uma investigação “absolutamente necessária”.
“Vamos continuar a coleta até um número mais seguro e, em seguida, o pedido será protocolado. Sem condenação antecipada, mas com muita firmeza, vamos realizar uma investigação absolutamente necessária para resgatar a confiança dos brasileiros nas instituições”, declarou o senador.
Enquanto isso, nos corredores de Brasília — onde a matemática política é mais complexa que qualquer equação — o senador segue coletando assinaturas além das 27 mínimas, talvez por precaução ou, quem sabe, para garantir que a CPI não desapareça misteriosamente no mesmo labirinto onde tantas outras já se perderam entre discursos inflamados, cafezinhos estratégicos e súbitas mudanças de humor parlamentar.
Na lista divulgada pelo senador (e até o fechamento do post) não aparece a assinatura de nenhum dos nove senadores do PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição nas eleições de 2026.
Quem sabe aparece; inclusive a do próprio Presidente da Casa e Senador pelo Amapá, Davi Alcolumbre.
No teatro permanente da política brasileira, poucas cenas se repetem com tanta fidelidade quanto aquela em que um senador ergue um punhado de assinaturas como quem levanta uma tocha cívica prometendo iluminar os porões da República.
O gesto é solene, o discurso é grave, a intenção é nobre — e, muitas vezes, o desfecho é silenciosamente irrelevante. O ritual começa com entusiasmo, percorre manchetes e termina, não raro, dissolvido no ar rarefeito das prioridades mutáveis do Congresso.
O fenômeno não é exatamente novo. O escritor
Ambrose Bierce, mestre do sarcasmo político, já observava em seu Dicionário do Diabo que “política é o conflito de interesses disfarçado de disputa de princípios”. No caso das investigações parlamentares, poderia acrescentar-se: às vezes também é a promessa de consequências disfarçando a previsível ausência delas.
A coleta de assinaturas no Senado — instrumento legítimo do processo legislativo — frequentemente se converte em um curioso espetáculo de expectativa institucional.
A promessa é de escrutínio rigoroso; a realidade, não raro, é de dissipação gradual. O comediante e pensador social Mark Twain dizia que “o Congresso é o único espetáculo do mundo em que o público paga para assistir e, mesmo assim, raramente entende o enredo”.
No Brasil, poderíamos adaptar a frase: o público entende o enredo, mas já suspeita do final.
Esse tipo de dinâmica cria um paradoxo curioso.
Ao anunciar investigações que muitas vezes não prosperam ou não produzem efeitos concretos, o próprio Senado corre o risco de transformar sua autoridade moral em personagem de comédia involuntária.
A expectativa pública cresce, as acusações ecoam, os discursos se multiplicam — e, quando nada acontece, sobra a sensação de que a solenidade institucional foi usada como cenário para um drama que jamais sairia do primeiro ato.
O humorista britânico P. J. O’Rourke, conhecido por seu olhar ácido sobre o poder, costumava dizer que “dar poder a políticos é como dar uísque e as chaves do carro a adolescentes”.
No caso das investigações parlamentares sem desfecho, talvez o problema não seja a chave, mas o fato de que o motor raramente é ligado.
A consequência mais delicada dessa engrenagem simbólica é o efeito reflexivo: o desgaste não recai apenas sobre os investigados ou sobre o objeto da investigação, mas também sobre quem a anuncia e sobre a própria instituição que deveria conduzi-la.
Quando promessas de apuração se acumulam sem resultado, o gesto investigativo perde densidade moral e passa a parecer, aos olhos da sociedade, mais um capítulo de retórica política.
O escritor Oscar Wilde, com sua ironia elegante, certa vez afirmou que “a única coisa pior do que falarem de você é não falarem de você”.
Na política, porém, existe um terceiro cenário ainda mais incômodo: falarem muito — abrirem investigações, coletarem assinaturas, convocarem solenidades — e, no final, não acontecer absolutamente nada.
Nesse ponto, o problema deixa de ser apenas jurídico ou político; torna-se existencial.
Uma instituição que anuncia constantemente a busca pela verdade, mas raramente chega até ela, corre o risco de transformar sua própria credibilidade em metáfora.
Metáforas institucionais, como ensina a história, costumam ser perigosas: começam como ironia pública e terminam como descrença coletiva.
No fim das contas, o Senado permanece ali — imponente, constitucional, necessário — mas às vezes preso em um curioso paradoxo: o de produzir investigações que começam com gravidade histórica e terminam com a leveza involuntária de uma anedota política.
Uma anedota que, repetida muitas vezes, deixa de ser apenas engraçada e passa a ser profundamente constrangedora.


