Após o Supremo Tribunal Federal (STF) impor restrições aos chamados “penduricalhos” na remuneração da magistratura, declarações de uma desembargadora do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA) reacenderam o debate sobre os limites e impactos da medida.

Durante sessão da Terceira Turma de Direito Penal, em 9 de abril, Eva do Amaral afirmou que colegas têm enfrentado dificuldades financeiras, relatando casos de juízes que não conseguiriam arcar com despesas médicas após a redução de rendimentos.
A magistrada expressou apreensão com o cenário, chegando a comparar a situação a um “regime de escravidão”, em referência às perdas salariais acumuladas.
Segundo reportagens publicadas no Portal Metrópoles, a desembargadora do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA) que reclamou da limitação e corte de penduricalhos durante sessão da Corte recebeu, somente no mês de março, R$ 117,8 mil brutos em remuneração. Além disso, tem à disposição um carro híbrido, com motorista com dedicação exclusiva, custeados pela corte.
As falas, proferidas em ambiente institucional, expõem a tensão crescente entre decisões de contenção de gastos no Judiciário e a percepção, dentro da própria magistratura, sobre a sustentabilidade de seus vencimentos diante das novas regras.
Há momentos em que o poder se distancia da realidade com a leveza de quem já não sente o peso do chão.
Nesse descompasso — por vezes sutil, por vezes escancarado — instala-se uma fratura entre a experiência concreta da sociedade e a percepção de certas autoridades.
O que para muitos é privação, para alguns torna-se mera abstração retórica. E é justamente aí que o risco se anuncia: quando a linguagem do poder deixa de corresponder à vida vivida.
Pierre Bourdieu advertia que os agentes inseridos em posições dominantes tendem a naturalizar seus privilégios, transformando-os em medida do mundo.
O “habitus” das elites, dizia o sociólogo, pode produzir uma cegueira estrutural, na qual as desigualdades deixam de ser percebidas como tais. D
e modo semelhante, o antropólogo Clifford Geertz insistia que compreender uma sociedade exige uma “descrição densa” de suas práticas e significados — algo que se perde quando a observação é substituída por suposições distantes da realidade cotidiana.
Na história, esse desalinhamento não é novidade.
Eric Hobsbawm relatou como elites políticas, em diferentes períodos, falharam em captar as tensões sociais que fermentavam sob a superfície, muitas vezes até o ponto de ruptura.
Já Norbert Elias observou que estruturas de poder tendem a se autonomizar, criando circuitos próprios de percepção e linguagem, progressivamente apartados do restante da sociedade.
O problema, portanto, não reside apenas no erro de diagnóstico, mas na sua persistência. Quando autoridades passam a interpretar o mundo a partir de referenciais dissociados das condições materiais da maioria, o discurso público se fragiliza, a confiança institucional se erode e o senso de justiça se torna difuso.
O que deveria ser mediação transforma-se em ruído; o que deveria ser representação, em estranhamento.
No limite, esse descompasso corrói não apenas a legitimidade do poder, mas a própria ideia de comunidade política.
Pois, como alertava o sociólogo Zygmunt Bauman, uma sociedade só se sustenta quando há algum grau de compartilhamento de experiências e responsabilidades.
Quando esse vínculo se rompe, resta uma convivência formal — e silenciosamente tensa — entre mundos que já não se reconhecem.


