Enquanto o país ainda tenta entender se estudou para concurso ou para um episódio especial de ficção investigativa, Alagoas oferece mais um capítulo de sua já consagrada tradição: a estabilidade absoluta — não dos aprovados, mas dos acontecimentos.

As revelações do Fantástico caíram como uma bomba… de festim.
Segundo reportagem publicada no Jornal Extra, investigação da Polícia Federal aponta a existência de um esquema milionário de fraudes em concursos públicos com atuação em diferentes estados e possíveis ramificações em Alagoas. O delegado-geral da Polícia Civil do estado, Gustavo Xavier do Nascimento, foi citado em acordo de delação premiada como um dos nomes mencionados nas apurações.
De acordo com o depoimento do delator, Gustavo Xavier teria inicialmente conduzido investigações sobre o grupo quando atuava em Arapiraca. No entanto, segundo essa versão, a ordem de prisão contra Thiago não teria sido cumprida, e ele teria sido posteriormente coagido a atuar no esquema, com o objetivo de beneficiar pessoas ligadas ao delegado, explica a reportagem.
O delegado-geral Gustavo Xavier, por sua vez, permanece no cargo com a solidez de uma tese jurídica que nunca será julgada: intocável, inabalável e, sobretudo, conveniente.
No Palácio República dos Palmares, o impacto foi tão profundo quanto um decreto esquecido na gaveta.
O Governo de Alagoas, calado ficou, calado está… calado continuará, perguntam os concurseiros?
Segue o baile, com a serenidade e esperança de, quem sabe, a sociedade alagoana – especialmente os estudantes – receba as explicações que lhe são de direito.
Afinal, há investigações em curso.
E, por vivermos (e ainda acreditarmos) em um Estado Democrático de Direito, há de se preservar o devido processo legal, ampla defesa, contraditório e, principalmente, a presunção de inocência.
Há uma forma de silêncio que não é ausência de som, mas presença de omissão.
Quando autoridades públicas assistem, quase com elegância burocrática, à repetição de situações constrangedoras — fraudes, abusos, distorções — instala-se algo mais profundo que a mera ineficiência: uma pedagogia da indiferença. O Estado, que deveria ser o primeiro guardião do limite, torna-se espectador especializado em postergar.
Montesquieu advertia que “a corrupção de cada governo começa quase sempre pela dos princípios”.
Não se trata apenas da violação da norma escrita, mas da lenta erosão do espírito que a sustenta.
Quando a lei deixa de ser vivida como compromisso e passa a ser manejada como instrumento retórico, o que se perde não é apenas a justiça do caso concreto, mas a confiança difusa que mantém coesa a vida em comum.
Max Weber, ao refletir sobre a dominação legítima, lembrava que o poder só se sustenta enquanto é reconhecido como tal.
A inércia, nesse sentido, é mais corrosiva que o erro: ela dissolve, pouco a pouco, a crença de que há racionalidade e finalidade na ação estatal. E quando essa crença se esvai, o que resta é um corpo social que aprende — por observação reiterada — que normas são maleáveis, responsabilidades são elásticas e consequências são improváveis.
Do ponto de vista jurídico, Rui Barbosa já denunciava, com amarga lucidez, que “justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta”.
A inação institucional amplia essa máxima: justiça evitada, adiada ou simulada converte-se em um teatro onde a forma subsiste, mas o conteúdo se esvazia. O constrangimento público, então, deixa de ser exceção e passa a integrar o cotidiano como uma espécie de ruído moral permanente.
Sérgio Buarque de Holanda, ao descrever as raízes do Brasil, apontava a dificuldade histórica de separar o público do privado.
Nessa ambiguidade estrutural, a autoridade muitas vezes hesita não por falta de instrumentos, mas por excesso de vínculos — explícitos ou subterrâneos — que tornam o agir um gesto inconveniente. A omissão, assim, deixa de ser falha e passa a ser método.
Pierre Bourdieu acrescentaria que o poder simbólico opera precisamente quando não é percebido como tal. Ao naturalizar a ausência de reação estatal, cria-se um habitus coletivo no qual o escândalo já não escandaliza, mas confirma expectativas. O extraordinário torna-se rotina; o absurdo, previsível. E o cidadão, progressivamente, ajusta suas próprias referências éticas àquilo que vê reiteradamente tolerado.
Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, não falava de monstros, mas de engrenagens.
A inércia institucional é uma dessas engrenagens discretas: não produz o ato, mas o permite; não cria o desvio, mas o legitima pelo não enfrentamento. É nesse intervalo — entre o que deveria ser feito e o que deliberadamente não se faz — que se consolida uma cultura de permissividade.
O resultado é menos visível que um escândalo, mas mais duradouro: um imaginário coletivo que passa a compreender o Estado não como instância de correção, mas como espaço de acomodação. A lei deixa de ser horizonte e torna-se ornamento. E o cidadão, diante disso, oscila entre o cinismo e a resignação — duas formas distintas de desistir.
No fim, a maior consequência da inércia não é a impunidade de alguns, mas a deformação de todos. Porque um povo que aprende, pela repetição dos fatos, que nada acontece, acaba por incorporar essa lógica ao seu próprio modo de existir.
E então, como numa ironia silenciosa, a omissão deixa de ser apenas das autoridades — torna-se também uma condição difusa da própria sociedade.



É outro governo que esses roubos e fraudes são tudo com aval dele.