
Por Rui Guerra
Há episódios na política que, vistos à distância, revelam mais sobre o funcionamento do poder do que longas teorias. O rompimento entre Guilherme Palmeira e José Tavares, em 1978, é um desses casos.
Não foi apenas uma divergência pessoal. Foi o encontro — e o choque — entre três forças permanentes da política: projeto, oportunidade e lealdade.
O contexto importa.
O Brasil vivia sob o regime militar.
Governadores não eram escolhidos pelo voto direto, mas por um processo de construção política que terminava no aval do presidente da República. Em Alagoas, Divaldo Suruagy encerrava seu primeiro mandato, e o Estado se movimentava para indicar um nome que chegasse viável ao Planalto.
Guilherme Palmeira surge como solução política viável. Não por acaso, mas por construção. Tinha o apoio de Suruagy, a aceitação do partido e, sobretudo, a articulação de José Tavares na Assembleia Legislativa — fator decisivo em um Estado onde a política sempre foi territorial.
Ali estava formada a aliança.
Mas alianças, em política, não são contratos. São equilíbrios provisórios.
José Tavares tinha um projeto. A prefeitura de Maceió era o passo necessário para chegar ao governo. Não era ambição isolada. Era estratégia.
E é exatamente nesse ponto que entra a segunda força: a oportunidade.
Um jantar no Rio de Janeiro, articulado por Arnon de Mello, na mansão de Joaquim Monteiro de Carvalho, pai de Lilibeth, não foi apenas um evento social. Foi uma intervenção política sofisticada na presença da fina flor do empresariado carioca. Ali se apresentou a Guilherme uma alternativa: incorporar Fernando Collor ao centro do poder local, ampliando alianças e criando uma nova base de sustentação.
Guilherme percebeu algo que muitos políticos só entendem tarde: governos não se sustentam apenas com aliados históricos. Precisam incorporar novas forças.
Ao aceitar a proposta, ele não rompeu de imediato com Zé Tavares. Tentou acomodar. Ofereceu espaço relevante. Buscou recompor.
Mas há momentos em que a política deixa de ser negociação e passa a ser escolha.
Zé Tavares recusou.
E ao recusar, não estava rejeitando um cargo. Estava defendendo um projeto.
É aqui que entra a terceira força: a lealdade — não à pessoa, mas ao próprio caminho.
O rompimento, portanto, não nasce de um gesto impulsivo. Ele é resultado de duas racionalidades que deixaram de convergir.
Guilherme escolheu ampliar o governo.
Zé Tavares escolheu preservar seu projeto.
Ambos estavam certos — sob suas próprias lógicas.
O tempo tratou de mostrar o custo dessas escolhas.
Anos depois, quando Guilherme e Collor se enfrentaram pelo governo, o passado voltou. Zé Tavares, no exercício do poder, apoiou Collor. E Collor venceu.
Não foi apenas uma revanche. Foi a continuidade de uma decisão tomada lá atrás, em 1978.
Na política, rupturas raramente são eventos isolados. São processos que amadurecem.
Mas é no episódio seguinte que essa história ganha valor maior do que o fato político em si.
Já no final do segundo governo Suruagy, com Zé Tavares à frente do Estado, surge uma situação que, hoje, pareceria improvável.
De um lado, um governo que apoiava Collor.
Do outro, um auxiliar que apoiava Guilherme.
E, ainda assim, havia convivência.
O convite para assumir a Secretaria de Planejamento não ignorava essa divergência. Ao contrário, a reconhecia.
A resposta de Zé Tavares sintetiza uma forma de fazer política que se perdeu:
— Seja leal na governança e siga apoiando seu amigo.
Há uma distinção poderosa nessa frase. Governar é uma coisa. Disputar é outra.
A política contemporânea, no entanto, decidiu misturar tudo.
Hoje, divergência virou deslealdade. Adversário virou inimigo. E a consequência disso é um empobrecimento da própria capacidade de governar.
Porque quando tudo vira disputa, nada mais é construção.
O episódio de 1978 — e seus desdobramentos — mostra um tempo em que o conflito existia, era duro, produzia derrotas reais, mas não destruía completamente as pontes institucionais.
Não se trata de romantizar o passado. A política daquela época tinha suas limitações evidentes, inclusive pela ausência de voto direto.
Mas havia um elemento que hoje escasseia: clareza de posição sem necessidade de ruptura pessoal.
Guilherme e Zé Tavares romperam politicamente e eu segui com o respeito e amizade dos dois.
E nunca foi destruída a possibilidade de convivência institucional.
E talvez essa seja a lição mais atual desse episódio antigo.
A política não se deteriora apenas quando há conflito.
Ela se deteriora quando perde a capacidade de conviver com ele.
Sobre a Autor:
Rui Guerra é Engenheiro Civil formado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e pós-graduado em Pavimentação Rodoviária/IPR e Elaboração e Análise de Projetos Econômicos/ Universidade de Brasília (UnB), com ampla experiência profissional nas áreas pública e privada.
Produtor da newsletter A Arquitetura dos Fatos.
*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus Autores e não representam, necessariamente, a linha editorial ou a visão do O Magistral. O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Todos os direitos reservados.


