Em meio à crescente repercussão sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro decidiu partir para a conhecida estratégia política do “e os outros?”.

Ao negar irregularidades na relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o parlamentar comparou o aporte milionário destinado ao longa com investimentos feitos pelo empresário em programas da TV Globo, incluindo atrações de Luciano Huck.
“Quando o Daniel Vorcaro, o banco dele, colocou R$ 160 milhões na Globo, no programa do Luciano Huck, entre 2025 e 2026, era dinheiro sujo? É dinheiro sujo?”, questionou o senador em entrevista na GloboNews
A declaração acrescenta novo capítulo ao já turbulento roteiro político-financeiro envolvendo cinema, bancos, eleições e narrativas públicas — um enredo onde, ao que parece, a linha entre marketing, militância e mercado financeiro anda cada vez mais cinematográfica.
No Brasil contemporâneo, até explicação política já vem acompanhada de comparação de audiência, patrocínio e disputa de narrativa em horário nobre.
“Pecunia non olet” — “o dinheiro não cheira”.
A célebre expressão atravessou séculos como uma das frases mais irônicas e desconcertantes da história política e econômica da civilização. Sua origem remonta ao Império Romano, durante o governo do imperador Vespasiano, no século I d.C.
Para aumentar a arrecadação estatal após períodos de crise financeira e guerras civis, Vespasiano instituiu um imposto sobre as latrinas públicas de Roma, cujo conteúdo era utilizado comercialmente em atividades como curtimento de couro e lavagem de tecidos.
Segundo o historiador Suetônio, o filho do imperador, Tito, criticou a natureza degradante da cobrança. Em resposta, Vespasiano teria aproximado moedas arrecadadas do nariz do filho e perguntado se sentia algum mau cheiro. Diante da negativa, pronunciou a frase que atravessaria a história: pecunia non olet.
A sentença tornou-se símbolo de uma verdade desconfortável da condição humana: uma vez incorporado ao sistema econômico, o dinheiro frequentemente perde seus rastros morais aparentes. Moedas, notas, transferências e patrimônios circulam indiferentes às paixões, crimes, virtudes ou tragédias que eventualmente os originaram.
O filósofo Karl Marx observava que o dinheiro possui extraordinária capacidade de dissolver identidades morais e transformar todas as coisas em equivalentes econômicos. Em sua análise do capitalismo, Marx via o dinheiro como força capaz de ocultar relações humanas, desigualdades e até mecanismos de exploração sob aparência de neutralidade econômica.
O jurista italiano Luigi Ferrajoli sustenta que um dos maiores desafios do Estado moderno consiste justamente em preservar mecanismos institucionais capazes de identificar a origem ilícita dos recursos financeiros em sociedades cada vez mais complexas.
Em economias globalizadas, o dinheiro circula rapidamente por bancos, empresas, fundos internacionais e sistemas digitais, tornando extremamente difícil distinguir patrimônio legítimo de recursos provenientes de corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico ou evasão fiscal.
O economista francês Thomas Piketty lembra que grandes concentrações patrimoniais historicamente estiveram frequentemente associadas a relações opacas entre poder político, privilégios econômicos e fragilidade institucional. Em muitos casos, fortunas atravessam gerações já desvinculadas de suas origens controversas, adquirindo aparência de respeitabilidade social plenamente consolidada.
O jurista brasileiro Miguel Reale advertia que a ordem jurídica depende não apenas da legalidade formal, mas também da legitimidade ética das relações sociais e econômicas.
O problema é que o dinheiro possui impressionante capacidade de normalização simbólica. Recursos originalmente suspeitos, após circularem por estruturas aparentemente legais, frequentemente passam a integrar ambientes de prestígio político, empresarial, cultural e até filantrópico.
O sociólogo alemão Georg Simmel, em A Filosofia do Dinheiro, observava que a modernidade transformou o dinheiro em linguagem universal das relações humanas.
Seu poder abstrato permite separar valor econômico de valor moral. Uma moeda não carrega em si a memória visível da corrupção, da violência ou da exploração eventualmente associadas à sua origem.
A dificuldade de separar o lícito do ilícito torna-se ainda maior em sociedades marcadas por forte promiscuidade entre interesses políticos e econômicos.
O jurista norte-americano Cass Sunstein alerta que ambientes institucionais frágeis favorecem zonas cinzentas onde legalidade formal e legitimidade ética nem sempre caminham juntas.
A própria história mundial está repleta de exemplos emblemáticos.
Durante décadas, bancos suíços tornaram-se conhecidos por abrigar fortunas oriundas de ditaduras, corrupção e evasão fiscal. Organizações criminosas internacionais aperfeiçoaram sistemas sofisticados de lavagem de dinheiro justamente para eliminar o “cheiro” original dos recursos ilícitos.
E a Suíça continua sendo um exemplo e referência de país e nação desenvolvida, séria e receptiva a milhares de turistas de todas as partes do mundo.
O filósofo francês Michel Foucault observava que o poder moderno raramente se manifesta apenas pela força explícita; ele frequentemente opera por mecanismos sutis de normalização social e econômica. O dinheiro talvez seja uma das ferramentas mais eficazes desse processo: uma vez legitimado socialmente, passa a circular quase imune à memória de suas origens.
Entretanto, o Direito contemporâneo tenta justamente contrariar a lógica implícita do pecunia non olet.
Mecanismos de rastreamento financeiro, compliance, cooperação internacional e combate à lavagem de dinheiro nasceram da necessidade de impedir que recursos ilícitos se misturem indistintamente à economia formal.
Ainda assim, permanece uma inquietação profundamente humana: até que ponto sociedades modernas realmente conseguem distinguir riqueza legítima de fortuna construída sobre corrupção, exploração ou criminalidade sofisticada?
Porque talvez Vespasiano estivesse parcialmente correto: o dinheiro realmente não possui cheiro perceptível.
Mas civilizações éticas e juridicamente maduras precisam justamente desenvolver instituições capazes de perceber aquilo que o dinheiro, por si só, tenta esconder silenciosamente sob a aparência neutra do valor econômico.


