Um ano após se submeter à cirurgia bariátrica, a influenciadora Thais Carla, de 34 anos, afirma viver uma transformação que vai além da estética e se aprofunda na relação com o próprio corpo e com a alimentação.

Distante de abordagens restritivas, ela defende um processo pautado na consciência e no autoconhecimento, sem culpa ou rigidez.
Em entrevista à CNN Brasil, Thais destaca que a principal mudança está na forma de se escutar e se compreender, e não apenas no que se consome.
Ao refletir sobre a jornada, ela ressalta que, apesar das alterações físicas e dos novos hábitos, sua identidade permanece preservada — agora, segundo aponta, com mais ferramentas de cuidado, mas com a mesma essência.
Há, no gesto de submeter o próprio corpo à cirurgia bariátrica, algo que ultrapassa a técnica e adentra o território das escolhas existenciais.
Não se trata apenas de reduzir o estômago, mas de confrontar uma história inscrita na carne — hábitos, afetos, compulsões, silêncios.
O bisturi, nesse contexto, não é solução mágica; é, como adverte o cirurgião Drauzio Varella, “uma ferramenta poderosa, mas que exige disciplina permanente, porque a operação não atua sobre as causas emocionais da obesidade”.
O procedimento, embora seguro quando bem indicado, envolve riscos clínicos — deficiências nutricionais, complicações cirúrgicas, necessidade de acompanhamento contínuo — e, sobretudo, inaugura uma travessia que é simultaneamente física e psíquica.
Do ponto de vista médico, a bariátrica altera o metabolismo, regula hormônios ligados à saciedade e pode reverter comorbidades graves.
Mas o corpo que emagrece rapidamente nem sempre é acompanhado, no mesmo ritmo, pela mente que o habita.
O psiquiatra Augusto Cury costuma observar que “mudar o corpo não significa, automaticamente, mudar a forma como a pessoa se percebe”, sugerindo que a autoimagem pode permanecer aprisionada a antigas narrativas de inadequação.
Surge, então, um descompasso: o espelho revela um novo contorno, enquanto a subjetividade ainda negocia com o passado.
Nesse intervalo, a autoestima torna-se terreno instável.
Para alguns, há uma elevação significativa, acompanhada de novas possibilidades sociais, afetivas e profissionais. Para outros, emergem angústias inesperadas — medo de reganho de peso, transferência de compulsões, ou mesmo um vazio que antes era preenchido pela relação com a comida.
A psicóloga Ana Beatriz Barbosa Silva alerta que “a obesidade, em muitos casos, está associada a mecanismos de compensação emocional; quando o alimento deixa de cumprir esse papel, é preciso reconstruir outras formas de lidar com frustrações e ansiedades”.
O risco, portanto, não reside apenas na cirurgia em si, mas na ausência de elaboração psíquica do que ela transforma.
Ainda assim, há uma dimensão de potência nesse percurso.
Ao reconfigurar hábitos e impor limites concretos ao corpo, a cirurgia pode inaugurar uma nova relação com o desejo — menos automática, mais consciente.
A motivação, nesse cenário, deixa de ser apenas estética e passa a dialogar com a ideia de cuidado e permanência.
Como aponta o endocrinologista Alfredo Halpern, referência no estudo da obesidade, “o sucesso da bariátrica depende menos do ato cirúrgico e mais da capacidade do paciente de sustentar mudanças ao longo da vida”.
Trata-se, portanto, de um projeto contínuo, não de um ponto de chegada.
No fundo, a bariátrica revela uma verdade incômoda: o corpo é apenas a superfície visível de uma trama mais profunda.
Emagrecer pode abrir portas, ampliar horizontes, favorecer realizações — mas não substitui o trabalho silencioso de reconstruir a própria identidade.
Entre cicatrizes e conquistas, o indivíduo se vê convocado a responder, talvez pela primeira vez com radical honestidade, à pergunta essencial: quem sou eu para além do meu corpo?


