A posse do ministro Kássio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi celebrada em Brasília com um jantar marcado pela mistura entre política, Judiciário e cultura popular.

O evento reuniu cerca de mil convidados, entre ministros, parlamentares, autoridades e personalidades públicas, em uma noite embalada por nomes históricos do samba e da música brasileira.
Entre rodas de samba, discursos e articulações discretas, o ministro Nunes Marques também subiu ao palco e participou da celebração musical ao lado de artistas consagrados, transformando a solenidade em um retrato simbólico da singular convivência entre poder, política e cultura no cenário brasileiro contemporâneo.
Com presença de figuras como Flávio Bolsonaro, Jorge Messias, Arthur Lira, ministros do STJ, integrantes do STF, Governadores, Parlamentares e outras Autoridades públicas, a cerimônia evidenciou o peso institucional e político da nova gestão da Corte Eleitoral às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.
Desde as civilizações mais antigas, banquetes nunca foram apenas refeições.
Eles surgiram como rituais de poder, símbolos de hierarquia e instrumentos sofisticados de construção política e social.
Dos salões imperiais romanos às cortes medievais, das festas aristocráticas francesas aos encontros diplomáticos contemporâneos, comer coletivamente sempre significou muito mais do que alimentar o corpo: significou demonstrar prestígio, consolidar alianças e reafirmar estruturas de autoridade.
O historiador francês Jean-Louis Flandrin observava que a história da alimentação também é a história das relações de poder.
Nas grandes civilizações, os banquetes funcionavam como espetáculos cuidadosamente organizados para exibir riqueza, influência e capacidade de controle sobre recursos escassos.
Enquanto parte significativa da população lutava pela sobrevivência básica, elites políticas e econômicas utilizavam a abundância alimentar como linguagem simbólica de superioridade social.
Na Roma Antiga, os famosos convivia reuniam senadores, generais e membros da aristocracia em celebrações que misturavam política, entretenimento e demonstração pública de status.
O historiador Suetônio descrevia festas imperiais marcadas por excessos monumentais enquanto vastas parcelas da população romana enfrentavam pobreza e instabilidade social. O banquete tornava-se, assim, um teatro do poder.
O sociólogo Pierre Bourdieu explicava que gostos, hábitos alimentares e formas de sociabilidade também funcionam como mecanismos de distinção social. A mesa das elites raramente é neutra: ela comunica pertencimento, exclusividade e capital simbólico.
Quem é convidado, quem se senta à mesa e quem permanece do lado de fora revela muito sobre as estruturas invisíveis de uma sociedade.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss sustentava que a alimentação possui dimensão cultural profunda porque comer coletivamente organiza vínculos, identidades e relações sociais.
Contudo, ao longo da história, banquetes frequentemente expressaram também a desigualdade estrutural entre governantes e governados. Em muitos momentos históricos, a fartura de poucos coexistiu silenciosamente com a privação de muitos.
A Revolução Francesa talvez tenha sido um dos exemplos mais emblemáticos desse choque simbólico. Enquanto a corte de Luís XVI mantinha luxuosos eventos aristocráticos em Versalhes, parcelas crescentes da população enfrentavam fome e colapso econômico.
O excesso das elites transformou-se em símbolo político da desconexão entre poder e realidade social.
Essa tensão permanece contemporânea. Em sociedades profundamente desiguais, grandes eventos políticos e celebrações de poder frequentemente despertam críticas não apenas pelos custos materiais, mas pelo simbolismo que carregam.
O filósofo Jean Baudrillard observava que sociedades modernas vivem cercadas por espetáculos de consumo e representação que frequentemente ocultam desigualdades estruturais profundas.
Naturalmente, encontros institucionais, recepções e cerimônias possuem função diplomática, cultural e política legítima. O problema surge quando o excesso simbólico parece contrastar brutalmente com crises sociais, desemprego, precariedade econômica e sofrimento coletivo.
Nessas circunstâncias, o banquete deixa de representar celebração institucional e passa a simbolizar distanciamento entre elites e população.
Existe algo quase arquetípico nessa imagem histórica: salões iluminados, mesas fartas e música elegante coexistindo com angústias sociais do lado de fora. Talvez porque o banquete, em sua essência, revele mais do que hábitos alimentares — ele expõe prioridades políticas, estruturas de poder e percepções de pertencimento social.
No fundo, toda grande mesa de poder carrega uma pergunta silenciosa: ela representa encontro legítimo de construção institucional ou espetáculo de desconexão diante da realidade coletiva? A resposta raramente está apenas nos pratos servidos, mas no contexto histórico, social e moral em que essas celebrações acontecem.
Porque sociedades não são julgadas apenas pela sofisticação de seus banquetes, mas pela forma como tratam aqueles que jamais serão convidados a sentar-se à mesa.


