Em tom direto e sem rodeios, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, afirmou nesta segunda-feira (27), durante evento empresarial em São Paulo, que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) “não tinha vocação para a vida pública”.

Ao comentar o cenário eleitoral de 2018, Kassab argumentou que a vitória de Bolsonaro esteve menos ligada a atributos pessoais e mais ao contexto político da época, marcado por forte rejeição ao PT.
“O Brasil não podia mais ouvir falar no PT, e Bolsonaro acabou assumindo”, declarou, ao sugerir que a ascensão do então candidato foi fruto de um vácuo político e não de uma trajetória vocacionada ao serviço público.
A vocação para a vida pública não se anuncia por discursos inflamados nem se sustenta na aritmética das urnas; ela se revela, antes, na disposição contínua de servir ao comum, mesmo quando o comum contraria o interesse próprio.
Max Weber, ao analisar a ética da política, advertiu que governar exige mais do que paixão: requer “senso de responsabilidade” e “proporção”, uma difícil combinação entre convicção e cálculo. Sem essa tensão, o poder deixa de ser instrumento e passa a ser fim — e, nesse desvio, a vocação se dissolve.
Hannah Arendt, por sua vez, ressaltou que a essência da política reside na ação e no compromisso com o espaço público, onde a pluralidade humana se manifesta.
Para ela, agir politicamente é expor-se ao julgamento dos outros e assumir as consequências dessa exposição. Não há vocação possível onde não há coragem de aparecer e responder. A fuga para o personalismo ou para o ressentimento, ainda que sedutora, empobrece a esfera pública e reduz o debate à lógica do confronto estéril.
Já o cientista político Robert Dahl observou que a qualidade de uma democracia depende menos de figuras providenciais e mais da solidez de suas instituições e da participação cidadã.
Ainda assim, líderes importam — não como salvadores, mas como mediadores capazes de ouvir, ponderar e construir consensos imperfeitos.
A vocação, nesse sentido, não é um dom inato, mas um exercício ético reiterado: aprender a decidir sob incerteza, a ceder quando necessário e a sustentar princípios quando indispensável.
Entre a ambição e o dever, a vida pública exige uma rara disciplina interior.
Ela convoca indivíduos a habitarem o desconforto das escolhas que nunca são puras, nem plenamente justas.
Talvez por isso, como insinuou Norberto Bobbio, a política seja o terreno das “promessas difíceis”, onde a coerência é testada não pelo discurso, mas pela persistência.
Ter vocação para esse campo é, no fundo, aceitar que servir à coletividade implica renunciar à ilusão de controle absoluto — e, ainda assim, seguir tentando.


