No Centro de Maceió, onde o improviso às vezes concorre com o empreendedorismo, uma bicicleta elétrica “entrou em promoção” nesta quinta-feira (16) — ou assim sugeria a placa pendurada, sem cerimônia, em um guindaste: módicos R$ 99,00.

Um achado, não fosse um detalhe quase irrelevante — trata-se de um veículo integrante do novo projeto de mobilidade urbana da Prefeitura de Maceió, rastreado por satélite, desses que não costumam desaparecer sem deixar rastro, para desespero de quem acredita na invisibilidade urbana.
A cena, que flerta com o humor involuntário, terminou sob o olhar atento da tecnologia.
Em nota, a empresa responsável informou que monitora a frota em tempo real e aciona protocolos imediatos diante de usos “criativos” do patrimônio alheio.
Em tradução livre: a liquidação durou pouco — e, ao que tudo indica, não era exatamente autorizada.
Há algo de paradoxal — e quase admirável, não fosse trágico — na inventividade da mente criminosa quando confrontada com a escassez.
Onde falta renda, por vezes sobra engenho; onde escasseiam oportunidades legítimas, proliferam soluções criativas que desafiam não apenas a lei, mas o próprio bom senso.
Vender, à luz do dia, um bem rastreado por satélite como se fosse uma pechincha esquecida pelo destino não é apenas um ato ilícito — é também uma espécie de performance involuntária sobre os limites da inteligência aplicada ao erro.
O psicólogo Albert Bandura, ao analisar os mecanismos de “desengajamento moral”, argumenta que o indivíduo não apenas comete o ato, mas constrói narrativas internas que o tornam aceitável, justificável — às vezes até engenhoso.
Já o psiquiatra Robert Hare, ao estudar traços psicopáticos, observa que certos perfis combinam ousadia, impulsividade e uma curiosa ausência de antecipação das consequências, como se a realidade fosse sempre um detalhe ajustável depois do ato consumado. Em termos mais diretos: a criatividade floresce, mas a prudência tira férias.
Some-se a isso um ambiente onde a percepção de impunidade funciona como fertilizante psíquico.
Quando a lei parece distante ou seletiva, o cálculo racional se contamina por uma espécie de otimismo ilícito: “talvez dê certo”, “ninguém vai notar”, “é só desta vez”.
O resultado é uma coreografia social curiosa, em que a astúcia tenta compensar a ausência de estrutura, e o improviso se veste de estratégia.
No fim, resta uma ironia desconfortável: a mesma capacidade criativa que poderia ser canalizada para inovação, trabalho ou sobrevivência digna é desviada para atalhos que, cedo ou tarde, cobram seu preço.
Como se a mente, brilhante em sua capacidade de inventar, insistisse em esquecer — seletivamente — que a realidade também sabe cobrar juros.


