O acesso à Justiça tem se consolidado como fator determinante para a obtenção de medicamentos de alto custo no Brasil, incluindo terapias oncológicas e, de forma crescente, produtos à base de cannabis.

Dados recentes indicam que esses itens já figuram entre os principais alvos de judicialização no país, superando, inclusive, fármacos destinados ao tratamento de diabetes e, em alguns casos, de câncer.
A tendência reflete tanto a expansão do uso terapêutico da cannabis quanto as barreiras regulatórias e econômicas ainda existentes.
Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, da Kaya Mind, o fornecimento público desses produtos já consumiu ao menos R$ 378 milhões desde 2015 — valor considerado subestimado devido à falta de dados completos de alguns estados.
A evolução do mercado também evidencia mudanças no perfil de acesso. Inicialmente concentrada em produtos importados, a oferta passou a incorporar alternativas nacionais após a RDC 327/2019.
Em 2023, medicamentos disponíveis em farmácias representaram 70% das vias de fornecimento público, percentual que recuou para 61% em 2024, diante do avanço expressivo de produtos oriundos de associações de pacientes.
O cenário revela não apenas a crescente demanda, mas também a reconfiguração dos caminhos legais e institucionais para acesso a essas terapias no país.
Durante décadas, a medicina caminhou com passos firmes, mas cautelosos, delimitando com rigor aquilo que reconhecia como terapêutico.
A cannabis, por muito tempo relegada ao campo do estigma, retorna agora ao centro do debate clínico não como símbolo de transgressão, mas como instrumento de cuidado. Essa travessia — da marginalidade à prescrição — não revela apenas uma mudança científica, mas também um deslocamento ético na forma como a medicina compreende o sofrimento humano.
O médico e pesquisador brasileiro Dr. Elisaldo Carlini, pioneiro nos estudos sobre canabinoides, já afirmava que “a cannabis não é uma panaceia, mas tampouco pode ser ignorada como ferramenta terapêutica legítima”.
Sua observação ecoa na prática contemporânea, onde neurologistas, oncologistas e psiquiatras passam a reconhecer, com base empírica, os efeitos da substância no controle da dor crônica, nas crises epilépticas refratárias e nos sintomas associados a tratamentos agressivos, como a quimioterapia.
Na mesma linha, o Dr. Raphael Mechoulam, químico israelense que isolou o THC, sustentava que “o sistema endocanabinoide é parte fundamental da regulação do equilíbrio fisiológico”.
Tal constatação não apenas legitima o uso da cannabis, mas sugere que, ao acioná-lo, o médico não introduz algo estranho ao corpo — antes, dialoga com um mecanismo intrínseco à própria biologia humana.
Os resultados clínicos, ainda que heterogêneos e dependentes de individualidades, apontam para uma melhora significativa na qualidade de vida de muitos pacientes.
Redução de dores, melhora do sono, diminuição da ansiedade e, sobretudo, a recuperação de certa dignidade cotidiana — essa que não se mede em exames laboratoriais, mas no simples fato de conseguir viver com menos sofrimento.
Como observa a médica americana Dra. Bonni Goldstein, especialista em cannabis medicinal, “quando tratamos com canabinoides, não estamos apenas reduzindo sintomas; estamos restaurando funções”.
Há, contudo, uma dimensão mais silenciosa nesse avanço: a medicina, ao admitir a cannabis, parece também admitir seus próprios limites. Reconhece que nem sempre a resposta está nos protocolos rígidos ou nas moléculas consagradas, mas, por vezes, em caminhos antes recusados por razões que extrapolavam a ciência.
E, nesse gesto, revela uma verdade incômoda: o progresso médico não é linear — ele é, muitas vezes, uma correção tardia de preconceitos antigos.
No fim, o que está em jogo não é apenas a eficácia de uma substância, mas a própria ideia de cuidado. Se a medicina existe para aliviar a dor e ampliar as possibilidades da vida, então cada avanço — inclusive o da cannabis — não deve ser julgado por sua origem, mas por seus efeitos concretos sobre aqueles que sofrem.
Afinal, como lembra o médico e humanista William Osler, “o bom médico trata a doença; o grande médico trata o paciente que tem a doença”.
E talvez seja justamente nessa diferença que a cannabis tenha encontrado, enfim, o seu lugar.


