Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (16) aponta que a maioria dos brasileiros é favorável à convocação de Neymar para a Copa do Mundo de 2026.

Segundo o levantamento, 53% apoiam a presença do atacante, enquanto 34% se posicionam contra; 8% se declararam indiferentes e 5% não souberam responder.
O estudo ouviu 2.004 pessoas em 137 municípios entre os dias 7 e 9 de abril, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Em comparação com junho de 2023, houve leve crescimento no apoio ao jogador, que passou de 48% para 53%.
Apesar da preferência popular, Neymar enfrenta incertezas quanto à sua condição física.
Desde a grave lesão no joelho esquerdo, em outubro de 2023, o atleta tem lidado com dificuldades para retomar o desempenho e a regularidade que marcaram sua trajetória na década passada.
O clamor popular por um ídolo não é, como muitos supõem, mera expressão de preferência esportiva; é, antes, um fenômeno simbólico que atravessa o tempo e se inscreve na própria arquitetura emocional de uma sociedade.
Ao se perguntar se Neymar deve ou não estar na Copa de 2026, parte significativa dos brasileiros não apenas opina — projeta, reivindica e, em certo sentido, implora pela continuidade de uma narrativa que lhes foi, por anos, familiar e reconfortante.
O historiador do esporte Eric Hobsbawm observou que o esporte moderno funciona como um dos últimos espaços de construção de identidades coletivas tangíveis, afirmando que “as nações se imaginam também através de seus atletas, que encarnam vitórias que o cotidiano raramente oferece”.
Nesse sentido, o apoio a Neymar ultrapassa a análise fria de desempenho ou condição física; ele se ancora na memória de um tempo em que o jogador representava não apenas talento, mas a promessa estética de um futebol capaz de encantar o mundo.
Há precedentes eloquentes. Diego Maradona, na Copa de 1994, foi convocado sob intensa pressão popular na Argentina, mesmo em meio a controvérsias físicas e extracampo.
Sua presença não era apenas técnica — era quase litúrgica.
Da mesma forma, Ronaldo Fenômeno, em 2002, carregava o peso de uma recuperação desacreditada, mas encontrou no imaginário coletivo brasileiro uma espécie de crédito simbólico antecipado, que acabaria por se converter em redenção histórica.
O historiador Allen Guttmann, ao analisar o papel dos heróis esportivos, argumenta que “o ídolo não é apenas aquele que vence, mas aquele em quem se deposita a expectativa de transcendência”.
É precisamente esse mecanismo que se evidencia: o público não ignora as lesões de Neymar, tampouco sua irregularidade recente — ele as relativiza. Porque o ídolo, no imaginário coletivo, não pertence inteiramente ao presente; ele é uma síntese entre memória, desejo e projeção.
Mas esse clamor tem seus riscos. Ao insistir na permanência do herói, a sociedade frequentemente posterga o enfrentamento do inevitável — a transição, o declínio, a substituição.
Como pondera o historiador David Goldblatt, “as nações esportivas muitas vezes se apegam a seus ícones como quem resiste ao próprio tempo, confundindo lealdade com negação da realidade”.
Entre a razão técnica e o afeto coletivo, o debate sobre Neymar revela mais do que uma escolha esportiva: expõe uma tensão humana fundamental.
Afinal, abandonar um ídolo nunca é apenas uma decisão pragmática — é, em alguma medida, aceitar que certas versões de nós mesmos, que ele ajudou a construir, também já ficaram para trás.


