Do gol ao pergaminho: quando o artilheiro decide jogar pela educação e memória de um povo.

O atacante norueguês Erling Haaland, do Manchester City, investiu cerca de 1,3 milhão de coroas norueguesas (mais de R$ 700 mil) na compra do livro mais caro da história de seu país: uma edição de 1594 da obra Saga dos Reis, do poeta e historiador islandês Snorri Sturluson.
A aquisição foi feita em parceria com seu pai, Alf-Inge Haaland.
Apesar de admitir não ser “um grande leitor”, o jogador decidiu doar a raridade à biblioteca pública de Bryne, sua cidade natal.
A iniciativa, no entanto, veio acompanhada de uma exigência: o livro deve permanecer permanentemente em exibição, permitindo que a comunidade tenha acesso à história de seus próprios antepassados.
Segundo Haaland, o incentivo à leitura se fortalece quando as pessoas se reconhecem nas narrativas que consomem.
Os ídolos não são apenas figuras admiradas; são, em alguma medida, arquitetos silenciosos do imaginário coletivo.
Seus gestos, escolhas e omissões reverberam para além do indivíduo, insinuando padrões de conduta, valores e aspirações. A sociedade, muitas vezes carente de referências sólidas, projeta neles uma espécie de bússola moral — ainda que essa bússola, não raro, aponte para direções ambíguas.
Paulo Freire advertia que “a educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.
Se assim é, os ídolos, enquanto agentes formadores indiretos, educam — ainda que sem intenção pedagógica. Cada atitude pública, cada posicionamento, cada silêncio eloquente, instrui multidões. Eles ensinam o que vale a pena ser admirado: o mérito ou o atalho, a disciplina ou o espetáculo, a consciência ou a conveniência.
Mas há um risco sutil e persistente: o de substituir o pensamento crítico pela devoção acrítica. Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, não falava de ídolos populares, mas sua análise ecoa nesse terreno ao sugerir que a ausência de reflexão pode normalizar condutas questionáveis.
Quando o ídolo erra e é aplaudido, o erro ganha verniz de legitimidade; quando acerta e é ignorado, perde-se uma oportunidade de elevação coletiva.
Rubem Alves, por sua vez, lembrava que “educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu”.
Ídolos, conscientes ou não, mostram recortes dessa vida.
Podem ampliar horizontes, inspirar superação, estimular virtudes — ou, em sentido oposto, banalizar excessos, glorificar superficialidades e enfraquecer referências éticas.
No fim, a questão não reside apenas nos ídolos que a sociedade escolhe, mas na forma como escolhe segui-los.
Admirar não deveria ser um ato de rendição, mas de discernimento.
Porque todo ídolo, por mais extraordinário que pareça, continua sendo humano — e toda referência, quando não questionada, corre o risco de se tornar um espelho distorcido daquilo que poderíamos, de fato, ser.


