No teatro previsível da política alagoana, a meritocracia resolveu tirar férias — sem data para voltar. O palco e o enredo: Sabatina na Assembleia Legislativa de Alagoas para definir o próximo Conselheiro do Tribunal de Contas de Alagoas.

Nesta segunda-feira, o deputado estadual Bruno Toledo protocolou sua inscrição para o Tribunal de Contas do Estado, ocupando a vaga deixada, com tocante coincidência biográfica, por seu pai.
Alguns chamariam de sucessão; outros, mais afeitos à ironia, poderiam sugerir um “plano de carreira familiar”.
O rito segue, é claro: inscrições, sabatina, votação — a liturgia institucional cuidadosamente preservada para conferir solenidade ao inevitável.
Enquanto isso, outros nomes também se apresentam, compondo o elenco que, embora presente, parece já conhecer o desfecho do enredo.
No fim, entre formalidades e protocolos, a República ensaia seu discurso técnico, mas entrega, com precisão quase hereditária, mais um capítulo onde o acaso tem sobrenome — e tradição.
Entre o que é permitido e o que é justo, estende-se uma fronteira silenciosa — e, não raro, convenientemente ignorada.
A legalidade, com sua arquitetura precisa e seus ritos impecáveis, oferece abrigo seguro às ações humanas; já a moralidade, mais volátil e exigente, insiste em perguntar não apenas “pode?”, mas “deve?”. É nesse intervalo — estreito, mas decisivo — que se revela o caráter das instituições e daqueles que as habitam.
Bertolt Brecht, com a lucidez desconcertante dos dramaturgos que desnudam o óbvio, advertia que “há muitas maneiras de matar — pode-se matar com uma faca, com o silêncio ou com a lei”.
A frase não acusa a norma em si, mas insinua algo mais inquietante: a possibilidade de que a legalidade, quando dissociada de um compromisso ético, torne-se instrumento de uma justiça apenas formal, incapaz de sustentar o peso do que é verdadeiramente justo.
No cinema, Ingmar Bergman frequentemente explorou esse abismo entre aparência e essência, entre o papel social e a verdade interior.
Seus personagens, muitas vezes presos a convenções impecáveis, revelam, no entanto, fissuras profundas — como se a conformidade externa fosse apenas um verniz delicado sobre conflitos éticos não resolvidos.
A cena institucional, nesse sentido, não difere tanto da cena dramática: há roteiro, há encenação, e há, sobretudo, a tensão entre o que se representa e o que se é.
Pierre Bourdieu, por sua vez, ao analisar os mecanismos de reprodução social, observou que estruturas de poder tendem a perpetuar-se sob a aparência de neutralidade.
A ordem estabelecida, dizia ele, raramente se impõe como imposição; ela se naturaliza. E quando isso ocorre, o que é legal passa a ser percebido como inevitável — quase como se a história tivesse abdicado de alternativas.
Não se trata, portanto, de negar a importância da legalidade — sem ela, resta apenas o arbítrio.
Mas tampouco se pode ignorar que a lei, desprovida de um horizonte moral, corre o risco de tornar-se uma engrenagem que funciona perfeitamente… na direção errada. Entre cumprir normas e honrar princípios, há uma diferença sutil, porém essencial — e é justamente nela que se mede a maturidade de uma sociedade.
No fim, talvez a questão não seja o que é permitido, mas o que se escolhe legitimar.
Porque há decisões que, embora irrepreensíveis no papel, deixam no espírito coletivo uma inquietação difícil de silenciar — como um aplauso que ecoa em um teatro onde, no fundo, todos suspeitam já conhecer o desfecho.


