Enquanto o cidadão comum faz malabarismo com boletos e inflação, a Câmara dos Deputados parece ter descoberto uma vocação mais nobre — ou ao menos mais cara: comunicar seus próprios feitos.

O primeiro bimestre de 2026 já ostenta o maior gasto nominal com divulgação da atividade parlamentar desde que o dado passou a ser registrado, em 2008, como se a necessidade de autopromoção tivesse, subitamente, se tornado uma urgência institucional.
Os R$ 15,7 milhões já desembolsados — superiores aos R$ 14,9 milhões do mesmo período de 2025 — sugerem que, em Brasília, não basta legislar: é preciso narrar, amplificar e, quem sabe, emoldurar cada gesto.
Ainda que 2024 mantenha o recorde inflacionado, 2026 desponta com fôlego para superá-lo, especialmente considerando o confortável prazo de até 90 dias para que despesas “esquecidas” convenientemente apareçam.
No país onde falta verba para o essencial, sobra criatividade para justificar o acessório.
Afinal, se a realidade não se vende sozinha, sempre há um bom orçamento para ajudar a contar a história — de preferência, em horário nobre.
Há algo de profundamente paradoxal — e quase trágico — na facilidade com que se financia a própria imagem em contraste com a dificuldade crônica de sustentar o essencial.
O mesmo Estado que alega escassez para leitos, escolas, estradas e segurança parece encontrar notável fluidez quando o objeto do investimento é a autopromoção. Não se trata apenas de um descompasso contábil, mas de uma incongruência moral: a prioridade desloca-se do ser para o parecer.
Hannah Arendt advertia que “a política trata do mundo comum”, isto é, daquilo que deve ser partilhado e cuidado coletivamente.
Quando esse mundo é relegado a segundo plano em favor da construção de narrativas individuais, algo se rompe no próprio sentido do público.
A publicidade, que deveria informar, passa a ornamentar; o mandato, que deveria servir, passa a se exibir. E, nesse deslocamento, o cidadão deixa de ser destinatário para tornar-se espectador — muitas vezes involuntário — de uma encenação custeada por ele mesmo.
Guy Debord, ao analisar a “sociedade do espetáculo”, afirmou que “tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”.
A frase, ainda que concebida em outro contexto, ecoa com precisão inquietante: a política, em vez de se afirmar pela transformação concreta da realidade, passa a depender da sua capacidade de produzir imagens de si mesma. Não importa tanto o hospital que funciona, mas o anúncio que o celebra; não a escola que ensina, mas a peça que a divulga; não a segurança que protege, mas o discurso que a proclama.
O paradoxo se intensifica quando se observa que as carências estruturais — filas em hospitais, evasão escolar, estradas degradadas, insegurança cotidiana — não são abstratas, mas experiências concretas que moldam a existência de milhões.
Ainda assim, insiste-se em investir no simulacro, como se a repetição da narrativa pudesse, por exaustão, substituir a realidade. Friedrich Nietzsche já advertia, com ironia cortante, que “temos a arte para não morrer da verdade”; aqui, porém, parece que se tem a propaganda para não enfrentar a verdade.
Há, portanto, uma espécie de anestesia ética em curso: gasta-se mais energia em legitimar a própria ação do que em realizá-la plenamente.
E, nesse movimento, o essencial torna-se periférico, enquanto o periférico assume o centro do palco. O resultado é uma política que se contempla no espelho enquanto o mundo ao redor — o mundo comum, concreto, urgente — segue à espera de algo mais do que palavras bem produzidas.
No fim, a incongruência não é apenas orçamentária; é existencial.
Revela uma escolha silenciosa sobre o que se valoriza: a aparência do cuidado ou o cuidado em si.
E essa escolha, ainda que raramente confessada, define não apenas a qualidade da gestão pública, mas o próprio sentido de responsabilidade de uma sociedade diante de si mesma.


