
Por Antônio Henrique T. Neto
O tema ganha complexidade à medida que buscamos (sem sucesso) respostas, à luz das ideologias em constate conflito, um diagnóstico e um consequente prognóstico acerca da pobreza e da riqueza.
Em seu “Manifesto Comunista”, Marx e Engels buscam tencionar as relações sociais dividido a sociedade em classes e estabelecendo um constante conflito entre elas. Vejamos:
“A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes. [Homem] livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo [Leibeigener], burgueses de corporação [Zunftbürger] e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta. Nas anteriores épocas da história encontramos quase por toda a parte uma articulação completa da sociedade em diversos estados [ou ordens sociais — Stände], uma múltipla gradação das posições sociais. Na Roma antiga temos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; na Idade Média: senhores feudais, vassalos, burgueses de corporação, oficiais, servos, e ainda por cima, quase em cada uma destas classes, de novo gradações particulares.
Não se pode olvidar da utilidade do diagnóstico apresentado. Todavia, buscamos soluções!
Penso não ser possível o desenvolvimento de um sociedade beligerante em constante conflito, visto que, no máximo, obteríamos uma “troca de posições”.
As diferenças entre os homens remontam à própria história da humanidade, desde que o elo entre o homem (criatura) e o Deus (criador) foi rompido ante a quebra do pacto de semelhança e identidade que havia entre ambos (pecado).
Uma das consequências mais importantes do pecado foi a “condenação” do homem a uma vida de trabalho para o seu próprio sustento – “No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gênesis 3:19).
Com a evolução dos arranjos sociais, surgiram as guerras e, por conseguinte, a escravização dos vencidos.
Digno de nota é que o povo hebreu (povo escolhido), descendente da família de Jacó e seus filhos, dentre eles José, que chegou a governar o Egito, foi escravizado por aproximadamente 400 anos pelos egípcios (E os egípcios faziam servir os filhos de Israel com dureza; Êxodo 1:33), o que nos deixa claro que absolutamente ninguém estaria indene de serviços e dominações durante a existência terrena.
Libertos da escravidão e conduzidos por Moisés durante 40 anos pelo deserto, o povo hebreu recebeu um conjunto de normas inspiradas por Deus para que pudessem organizar a sociedade que nascia, mesmo com todas as diferenças e peculiaridades de cada indivíduo.
O futuro previa guerras e dominações, pois que havia um destino a ser alcançado, a terra prometida, que para sua ocupação se faria necessário desapossar os povos que nela habitavam.
E nessa caminhada, a nação crescia, conquanto o povo se multiplicava, e as diferenças entre as pessoas, por conseguinte, repercutiam na existência de ricos e pobres, visto que as aludidas diferenças entre pessoas refletiam a capacidade que cada um tem de superar ou não as adversidades (crises, estiagens, fome, doenças, etc).
Nesse contexto, a moral de Deus, também conhecida como “Justiça de Deus”, estabeleceu o seguinte mandamento:
“Sempre haverá pobres na terra. Portanto, eu ordeno que vocês sejam generosos com seus compatriotas israelitas que são pobres e necessitados na sua terra.” —Deuteronômio 15:11
De tudo que se disse até aqui, é possível inferir que a pobreza é um atributo inexorável de qualquer sociedade. O que faz a diferença é como o problema é enfrentado.
Não pretendo aqui discutir mecanismos estabelecidos no ambiente global ou local dedicados a minimização da pobreza, todavia é digno de nota que a Constituição da República Federativa do Brasil, por exemplo, preconiza que um dos objetivos da República Federativa do Brasil é erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais (art. 2º, III), o que reflete a preocupação do Estado com pobreza e seus efeitos.
Entretanto, são normas meramente programáticas, malgrado seja possível identificar várias ações governamentais nesse sentido.
Bem! Se a Constituição Federal está prestes a completar 50 anos, existem ações governamentais e ainda temos pobres no Brasil, o que está acontecendo afinal?
Não seria possível nesse pequeno ensaio apresentar um diagnóstico das causas da pobreza no Brasil, máxime no que respeita análise dos aspectos econômicos, sociais, climáticos, políticos, de governança, comportamentais, etc, e a consequente discussão acerca de possíveis soluções concretas e em nível nacional.
Todavia, está visto que por mais recursos que se destinem ao combate à pobreza em sede de ações governamentais estas acabam assumindo um viés utilitarista e não são capazes de estabelecer uma cultura de compaixão e generosidade entre as pessoas.
Nesse sentido, John Stott[1] assevera que:
“Se, então, a perspectiva de um país é ser transformado de não empobrecida em nação próspera, não é só a economia que está em jogo. Precisamos analisar a influência da cultura e, efetivamente, como as pessoas vêm a si mesmas, pois um desenvolvimento verdadeiro não pode ser imposto de cima para baixo, mas precisa começar pelas próprias pessoas.
(…)
Assim, de uma perspectiva cristã, precisamos incluir também a necessidade de transformação espiritual da humanidade, e isso não pode ser separado daquelas outras metas que estão no centro das visões mais tradicionais de desenvolvimento.”
Como já discorremos no artigo anterior – Em tempos de crise de referência que promove uma sociedade atônita e mentalmente adoecida, eis uma breve abordagem acerca dos princípios que podem conduzir os indivíduos ao “bem” – para que o homem natural e imperfeito obtenha um modo de agir que o leve ao bem comum (felicidade e paz coletiva) necessita buscar no plano divinal (pois que reputado por perfeito) os princípios necessários para dar “vida” às aspirações humanas.
O mesmo se aplica no enfretamento do problema em tela.
Na Justiça do Criador a resposta bíblica à pobreza é generosidade.
Assoma-se a isso o princípio universal cristão do amor a Deus e ao próximo com a si mesmo.
Cuida-se de uma mandamento norteador, é dizer, informador para qualquer projeto, ação e deliberação para o agir humano. É curial admitir que os deleites proporcionados pela riqueza conduzem a um grande abismo, a saber, o amor pela coisa (dinheiro) e sua consequente idolatria, causadores de tropeços e aprisionamentos mentais deletérios.
Por amor aos bens (limitados, inanimados e finitos) perde-se a paz e, em derradeira estância, culmina no afastamento definitivo entre criatura e criador.
Examinemos esta passagem do texto sagrado:
“¹⁶ E eis que, alguém aproximando-se, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?
¹⁷ E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.
¹⁸ Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho;
¹⁹ Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo.
²⁰ Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?
²¹ Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me.
²² E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades.
²³ Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus.”
Mateus 19:16-23
O texto nos mostra que ainda que todos os mandamentos trazidos pela Lei Mosaica estejam sendo observados, a idolatria e o apego excessivo aos bens materiais (riqueza) afastaram definitivamente o jovem da presença de Jesus (perfeição).
Observe ainda que a expressão “se queres ser perfeito”, foi cuidadosamente cunhada para exprimir a plena entrega aos princípios de Justiça do Eterno que fariam do jovem um ser bem aventurado e em plena comunhão como Criador.
Nesse desiderato, percebe-se com absoluta clareza que o desapego aos bens em favor dos pobres é acima de tudo uma OPORTUNIDADE de aproximação e comunhão com o Eterno.
A uma, porque expurga qualquer possibilidade de idolatria a coisas materiais (finitas, imperfeitas, e inúteis para a vida eterna).
A duas, porque colabora significativamente com a redução da pobreza.
E, em se tratando de oportunidade para aproximação do homem com o Criador, é possível afirmar que a pobreza, inicialmente é uma maldição para quem dela padece, todavia, é um grande oportunidade de libertação e aperfeiçoamento para os mais abastados, quando estes se aplicam à prática de generosidade, uma das manifestações mais importantes e eficazes de amor ao próximo.
[1] Stott, John. O cristão em uma sociedade não cristã: como posicionar-se biblicamente diante dos desafios contemporâneos. Tradução de Markus Hediger. Dio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019.
Sobre o autor:
Antônio Henrique T. Neto é Cristão e Músico. Graduado em Administração de Empresas, Bacharel em Direito e pós graduado em Gestão Estratégica, Marketing e Direto material e processual do Trabalho. Autor do livro Assédio Moral, incidência e estratégias para prevenção e repressão, foi docente de disciplinas dos cursos de Administração de Empresas e Direito por mais de 15 anos.
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