Entre o apito final e o ruído das CPIs, o Brasil já não reage ao futebol como antes. A derrota vira nota de rodapé, enquanto o espetáculo político monopoliza a atenção. O campo perde drama; o plenário entrega tensão, conflito e a ilusória promessa de consequências que raramente chegam ao fim.

Em Boston, o futebol vestiu smoking e convidou o Brasil para um baile que não era exatamente o seu. Diante de uma França segura, elegante e imponente, a Seleção até tentou ensaiar alguns passos, mas logo pareceu admitir — ainda que sem palavras — que dançava fora do ritmo do adversário.
Placar final 2 X 1 para os franceses.
A Seleção Brasileira, outrora protagonista de paixões quase religiosas, agora disputa audiência com CPIs que entregam algo que o futebol recente tem economizado: conflito, roteiro e sensação de consequência.
Em campo, 90 minutos de previsibilidade tática; em Brasília, horas de espetáculo onde cada fala promete um plot twist — ainda que, no fim, o placar também insista no empate técnico entre indignação e impunidade.
Entre lampejos de Vini Jr. e a saída precoce de Raphinha, o time de Ancelotti oscilou entre a esperança e a constatação de suas próprias limitações. Ao apito final, mais do que uma derrota, ficou a sensação de um encontro pedagógico: daqueles em que o placar pouco revela, mas o jogo inteiro insiste em explicar.
Há um silêncio curioso pairando sobre a camisa amarela — não o silêncio reverente das grandes conquistas, mas aquele, mais incômodo, de arquibancadas emocionalmente esvaziadas.
O Brasil, que outrora parava para ver a Seleção, hoje parece dividir sua atenção — ou até abandoná-la — em favor de outro espetáculo: o teatro denso, ruidoso e, por vezes, mais imprevisível das CPIs e da política cotidiana.
O comentarista Tostão, com a sobriedade que lhe é característica, já chegou a observar que “o futebol brasileiro perdeu sua identidade ao se afastar do torcedor comum”.
Não se trata apenas de tática ou de resultados; trata-se de pertencimento. Quando o povo deixa de se reconhecer no que vê em campo, a paixão — esse combustível irracional — começa a rarear.
Ao mesmo tempo, como apontou o jornalista Juca Kfouri, “a política brasileira virou um espetáculo permanente, com drama, conflito e personagens que se renovam a cada escândalo”. E o público, fiel à lógica do interesse humano, migra para onde há mais tensão narrativa.
Nietzsche, ao analisar o espírito humano, advertiu que “onde há espetáculo, há também necessidade de sentido”.
O problema, talvez, seja que o futebol — antes um espelho simbólico da alma nacional — passou a oferecer menos sentido do que a própria crise política, que, embora árida, parece mais concreta, mais urgente, mais visceral.
O cidadão, agora também espectador, já não busca apenas o gol; ele quer explicações, culpados, responsabilizações — quer, em última instância, compreender o jogo maior em que sua própria vida está inserida.
Galvão Bueno, em tom quase confessional, já lamentou: “o brasileiro se afastou da Seleção porque não se sente mais representado por ela”.
A frase ecoa como diagnóstico e epitáfio parcial de uma relação que já foi simbiótica. Em contrapartida, as CPIs, com seus embates televisionados, oferecem uma catarse diferente — menos lúdica, mais indignada.
No fundo, não se trata de escolher entre futebol e política, mas de reconhecer uma mutação no imaginário coletivo.
O Brasil que antes se explicava pelo drible agora tenta se decifrar pelo depoimento, pelo voto, pelo embate institucional. E talvez resida aí uma ironia sutil: ao trocar o encanto do jogo pela gravidade da política, o país não necessariamente amadureceu — apenas deslocou o palco de suas paixões.


