Como em toda boa reprise — daquelas que a TV insiste em chamar de “imperdível” — o eleitor paulista é convidado a assistir novamente ao duelo entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad.

Mudam-se os figurinos, atualizam-se os currículos, mas o roteiro mantém o velho conhecido: dois projetos, duas narrativas e um estado que segue como palco principal da política nacional.
De um lado, o atual governador, embalado por índices de aprovação que fazem sorrir até planilha de Excel. Do outro, o ministro da Fazenda, que tenta equilibrar contas públicas e capital político em meio a ventos nem sempre favoráveis.
Em 2022, o desfecho foi conhecido; em 2026, a história se reapresenta — com a ironia típica da política brasileira: por aqui, o “novo” muitas vezes vem com gosto de déjà vu. Mas há um tempero extra no cardápio: São Paulo pode ser apenas o primeiro ato de uma disputa maior: o poder em Brasília.
Nos bastidores, o embate entre ambos já ensaia contornos presidenciais, como se o Palácio dos Bandeirantes fosse uma espécie de prévia para o Planalto.
Assim, o que parece uma eleição estadual ganha ares de semifinal nacional — onde cada discurso, cada número e cada gesto não fala apenas aos paulistas, mas ecoa como teste de viabilidade para voos mais altos.
Afinal, no Brasil, perder ou ganhar em São Paulo nunca é só sobre São Paulo.
A política, quando se cristaliza em nomes, perde a vitalidade das ideias. Torna-se um espelho opaco de si mesma, repetindo gestos, discursos e vícios como se o tempo não lhe exigisse renovação.
A alternância de lideranças não é mero capricho democrático; é, antes, uma necessidade existencial das sociedades que desejam amadurecer. Sem ela, o poder deixa de ser instrumento e passa a ser fim — e todo fim que se basta tende à estagnação.
Heráclito já advertia: “ninguém entra duas vezes no mesmo rio”.
A política que insiste nas mesmas figuras, como se fossem permanentes, ignora essa verdade elementar: o fluxo da vida exige novos olhares, novas experiências e novas respostas. A permanência excessiva não gera estabilidade; frequentemente produz acomodação, distanciamento e, por vezes, uma perigosa confusão entre o público e o privado.
Renovar não significa desprezar a experiência, mas submetê-la ao crivo do tempo e da coletividade. Significa permitir que novas vozes questionem antigas certezas, que outras gerações tensionem o status quo e que o poder volte a ser aquilo que deveria ser desde sempre: transitório, responsável e consciente de seus limites.
Sem essa renovação cortante — quase cirúrgica — a política envelhece antes da sociedade, e passa a frear aquilo que deveria impulsionar.
Com ela, ao contrário, abre-se espaço para o inesperado, para o contraditório e, sobretudo, para o crescimento coletivo. Porque, no fim, não são os líderes que devem durar: é a sociedade que precisa avançar.


