Em um raro exercício de malabarismo retórico, a deputada Erika Hilton (PSOL), conhecida por sua firme e entusiasmada defesa do presidente Lula, resolveu inovar: criticou — mas sem criticar tanto assim.

Ao comentar o encontro fora da agenda oficial entre o chefe do Executivo e o banqueiro Daniel Vorcaro, Hilton admitiu que houve “erro”, mas tratou logo de suavizar o tom, atribuindo o episódio a uma espécie de “ingenuidade presidencial” — como se, nos bastidores do poder, a falta fosse apenas de malícia, e não de método.
“[Lula] errou. Poderia ter colocado na agenda. Talvez o presidente Lula não tivesse a dimensão do que viria por aí. Talvez não tivesse o problema. E, às vezes, na ingenuidade, a gente acaba errando também. Faltou malícia”, declarou.
Entre a reprimenda leve e o afago político, a fala soa quase como um pedido educado para que, da próxima vez, o improviso venha devidamente protocolado.
Afinal, no teatro da transparência, o problema não parece ser o ato em si — mas o fato de ele não ter sido anunciado no roteiro.
Eleita para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara, a deputada Erika Hilton (PSol) enfrenta resistência do campo conservador para exercer o cargo.
Em entrevista à coluna nesta quinta-feira (19/3), a parlamentar argumentou que não é necessário ser biologicamente mulher para entender a urgência das políticas públicas voltadas para o tema.
Há um ponto em que a política deixa de ser mera engrenagem institucional e passa a tocar o campo mais profundo da existência coletiva: o da confiança. Indicar alguém a um cargo público não é apenas um ato administrativo — é uma declaração silenciosa de valores, um espelho daquilo que se entende por justiça, mérito e responsabilidade.
Quando essa escolha carece de coerência e seriedade, não se fragiliza apenas a estrutura do Estado, mas a própria ideia de autoridade legítima.
Importa frisar, desde logo, que essa reflexão não se dirige a uma pessoa específica, tampouco constitui análise particular sobre a condição de Erika Hilton ou de qualquer outro agente público. Trata-se, antes, de uma consideração mais ampla, quase atemporal, sobre os fundamentos que sustentam a credibilidade das instituições.
Max Weber já advertia que “a autoridade só se sustenta quando é reconhecida como legítima por aqueles que a ela se submetem”.
E essa legitimidade não nasce do cargo em si, mas da integridade do processo que conduz alguém até ele. Não basta investir alguém de poder; é preciso que esse poder seja percebido como justo, necessário e confiável. Do contrário, decisões públicas passam a carregar o peso da suspeita, e não a força da razão.
A incoerência nas nomeações corrói a credibilidade como a ferrugem consome o ferro: de forma silenciosa, mas progressiva.
Quando critérios técnicos são substituídos por conveniências circunstanciais, ou quando a seriedade cede espaço à complacência, o que se instala não é apenas um erro pontual — é uma erosão contínua da confiança social. E sem confiança, o poder se esvazia, tornando-se apenas formal, desprovido de verdadeira autoridade moral.
Ser coerente, nesse contexto, não é rigidez — é compromisso com aquilo que se espera de quem ocupa o espaço público.
É reconhecer que cada nomeação carrega consigo não apenas um nome, mas um símbolo. E símbolos, quando desacreditados, não se restauram com facilidade.
No fim, a legitimidade de um governo não se mede apenas por suas decisões, mas pela qualidade daqueles que escolhe para tomá-las.
Pois, como bem observou Hannah Arendt, “o poder corresponde à capacidade humana não apenas de agir, mas de agir em conjunto”. E ninguém age verdadeiramente em conjunto quando já não acredita naqueles que foram escolhidos para liderar.


