Segundo registros do Coaf, Banco Master e JBS teriam repassado juntos cerca de R$ 18 milhões a uma consultoria cujo faturamento declarado beira o simbólico. Um detalhe quase irrelevante — não fosse o fato de que parte desses recursos teria seguido adiante, chegando ao filho de um ministro do Supremo Tribunal Federal: Nunes Marques é a bola da vez!

No Brasil, a criatividade empresarial parece não conhecer limites — especialmente quando o assunto é fazer o dinheiro “trabalhar” em trajetos, digamos, pouco convencionais.
Entre cifras robustas e empresas de musculatura financeira quase inexistente, surge mais um capítulo digno de roteiro satírico: quando milhões encontram guarida em estruturas que, no papel, mal sustentariam um cafezinho corporativo.
O Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, e a JBS contrataram serviços da Consult Inteligência Tributária, empresa de consultoria que tem contratos com o advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kássio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo registros do Coaf, Banco Master e JBS teriam repassado juntos cerca de R$ 18 milhões a uma consultoria cujo faturamento declarado beira o simbólico.
A matemática chama atenção, mas é a lógica que realmente intriga: uma empresa que declara modestos R$ 25,5 mil de faturamento movimentando cifras milionárias?
Para o Coaf, a conta simplesmente não fecha — ou fecha bem demais, dependendo do ponto de vista. Classificadas como “incompatíveis com a capacidade financeira”, as transações levantam a velha suspeita de que, por trás de fachadas discretas, possam existir engrenagens bem mais complexas.
No país onde, não raro, o improvável se torna rotina, resta ao público acompanhar mais esse episódio em que o extraordinário insiste em se apresentar como mera coincidência contábil.
Afinal, por aqui, até o dinheiro parece ter vida própria — e um curioso talento para encontrar caminhos criativos.
Não dá para sustentar, com honestidade intelectual, a ideia de um “envolvimento quase integral” de toda uma Corte sem provas robustas e individualizadas. Generalizações desse tipo podem até produzir efeito retórico, mas fragilizam o próprio argumento e obscurecem o ponto mais sério: a erosão da confiança institucional quando surgem indícios — ainda que pontuais — de proximidade indevida entre poder econômico e poder judicial.
Dito isso, o problema é real e mais profundo do que um caso isolado.
Quando nomes ligados ao topo do sistema de Justiça aparecem, ainda que indiretamente, em fluxos financeiros classificados como atípicos por órgãos de controle, não é apenas a legalidade que entra em xeque — é a própria ideia de imparcialidade. E, sem ela, a autoridade deixa de ser respeitada e passa a ser apenas temida ou contestada.
Como advertia Montesquieu, “não há liberdade se o poder de julgar não estiver separado dos outros poderes”.
A essa máxima, o nosso tempo exige um complemento silencioso: não há legitimidade quando o poder de julgar sequer parece distante dos interesses que deveria arbitrar.
A credibilidade de uma Corte Constitucional não se sustenta apenas em decisões técnicas, mas na percepção pública de integridade.
Basta a sombra de dúvida para que a confiança — esse capital invisível e essencial — comece a se dissipar. E confiança, uma vez perdida, não se recompõe por decreto, mas por um longo e rigoroso processo de transparência, responsabilidade e autocontenção.
No fim, o maior dano não está apenas no eventual desvio, mas na corrosão simbólica: quando a sociedade passa a enxergar o guardião da Constituição como mais um ator entre interesses, o pacto democrático se fragiliza.
Porque instituições não sobrevivem apenas de poder — sobrevivem, sobretudo, de crença.


