Entre agendas oficiais e encontros sem registro, uma lacuna documental chama atenção no Palácio do Planalto. Cadê Guido Mantega? E Daniel Vorcaro? O Presidente sabe de algo?

A Presidência da República informou não possuir registros das reuniões realizadas pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega no período em que atuava como consultor do banco Master, do empresário Daniel Vorcaro — inclusive de um encontro do próprio Vorcaro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrido em 4 de dezembro de 2024.
A resposta foi dada após questionamento feito via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela reportagem, protocolado no fim de janeiro deste ano.
A transparência é, antes de tudo, um gesto ético. Mais do que um mecanismo burocrático, ela representa a abertura simbólica das portas do poder para o olhar da sociedade. Onde há luz, há responsabilidade; onde há sombras, prosperam o arbítrio e o privilégio.
A vida pública, para manter sua legitimidade, precisa dessa claridade permanente — não como favor do governante, mas como direito do cidadão.
Immanuel Kant lembrava que a moralidade das ações públicas deveria suportar o teste da publicidade: “Todas as ações relativas ao direito de outros homens cuja máxima não seja suscetível de publicidade são injustas.”
Em outras palavras, aquilo que não pode ser mostrado dificilmente pode ser considerado moral. A transparência, nesse sentido, não é apenas administrativa; ela é um princípio filosófico da própria justiça.
Hannah Arendt, ao refletir sobre os mecanismos do poder, advertia que regimes e instituições se corrompem quando os atos políticos deixam de ocorrer no espaço público e passam a se mover na penumbra das relações privadas.
Para ela, “o poder nasce quando as pessoas se reúnem e agem em comum”. Se o poder nasce do coletivo, ocultá-lo do coletivo significa esvaziar sua própria legitimidade.
Em sociedades marcadas por históricos recorrentes de corrupção e malversação de recursos públicos, a transparência adquire um valor ainda mais decisivo. Não se trata apenas de evitar crimes administrativos, mas de restaurar a confiança social — um capital invisível, porém essencial para a estabilidade das instituições.
Como observava Montesquieu, “a corrupção dos governantes quase sempre começa pela corrupção dos princípios.” Quando os princípios da impessoalidade e da publicidade são relativizados, abre-se a porta para que interesses privados se confundam com o interesse público.
A transparência, portanto, funciona como uma espécie de consciência institucional. Ela recorda que o Estado não pertence aos governantes de ocasião, mas à coletividade que o sustenta. E quanto mais longa for a memória de escândalos e desvios em uma nação, maior deve ser a exigência de clareza nos atos do poder.
No fundo, trata-se de uma questão existencial da própria democracia: se o poder é exercido em nome do povo, ele precisa ser visível ao povo. Caso contrário, o silêncio administrativo pode se transformar em uma linguagem perigosa — aquela em que a ausência de registros não significa ausência de fatos, mas apenas a ausência de luz sobre eles.


