Em meio ao barulho previsível da arena política, o ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), tratou de colocar um balde de água fria nas tentativas da oposição de colar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) as digitais do escândalo envolvendo o Banco Master.

Em tom que misturou pragmatismo institucional e uma dose de ironia política, o ministro afirmou que o encontro entre Lula e o banqueiro Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto não passou de mais um daqueles rituais protocolares que fazem parte da liturgia do cargo — algo que, segundo ele, ganha contornos de escândalo apenas quando a disputa política decide transformar agenda oficial em enredo conspiratório. “As chances são zero”, resumiu.
O ministro também recorreu a uma metáfora para comentar a presença de Vorcaro em agendas oficiais:
“O enganador até almoça na sua casa. Mas não janta porque no meio da tarde você descobre e toca ele pra fora”, filosofou o Ministro Renan Filho.
Na vida pública, a linha que separa a cordialidade institucional da ingenuidade política é, muitas vezes, tão fina quanto perigosa.
A autoridade de Estado, ao receber empresários, banqueiros, líderes sociais ou cidadãos comuns, cumpre um rito próprio da democracia: o da escuta pública e da impessoalidade administrativa.
No entanto, esse mesmo espaço de convivência institucional é também território fértil para ambiguidades — sobretudo quando nele transitam figuras cuja respeitabilidade social pode ocultar práticas pouco republicanas.
O historiador britânico Eric Hobsbawm lembrava que as elites econômicas sempre souberam circular com grande habilidade nos corredores do poder, muitas vezes revestindo interesses privados com o verniz da legitimidade institucional.
A história moderna está repleta de episódios em que homens bem vestidos, com discursos sofisticados e acesso privilegiado aos gabinetes, revelaram-se, mais tarde, protagonistas de fraudes, escândalos financeiros e complexos esquemas de corrupção.
Nesse sentido, o princípio da impessoalidade, previsto no direito administrativo, surge como uma espécie de antídoto ético.
O jurista Celso Antônio Bandeira de Mello ensinava que a administração pública não pode agir guiada por simpatias pessoais, prestígio social ou aparente respeitabilidade dos interlocutores.
O agente público não trata indivíduos, mas interesses juridicamente apresentados diante do Estado. Em outras palavras, diante do poder público, todos devem ser recebidos — mas ninguém deve ser privilegiado.
Essa exigência institucional torna-se ainda mais relevante quando se recorda que os chamados crimes de colarinho branco raramente carregam os estigmas visíveis da criminalidade comum.
O sociólogo Edwin Sutherland, pioneiro no estudo desse tipo de delito, observou que tais crimes são cometidos por indivíduos de alta posição social e grande respeitabilidade pública. São crimes silenciosos, praticados em escritórios elegantes, contratos complexos e reuniões discretas — longe da imagem clássica do criminoso.
Por isso, a democracia exige das autoridades públicas algo mais do que boas intenções: exige prudência institucional.
Receber todos faz parte do jogo republicano; acreditar em todos, não.
Porque, em um mundo onde vigaristas podem usar gravatas de seda e discursos refinados, o Estado precisa manter sempre a mesma distância — elegante, institucional e, sobretudo, desconfiada.
A história ensina que alguns dos maiores escândalos financeiros do mundo começaram exatamente assim — com reuniões perfeitamente formais, agendas oficiais impecáveis e interlocutores que pareciam, à primeira vista, apenas mais um representante respeitável do mundo dos negócios.
Como advertia o historiador Tony Judt, “as democracias não são corroídas apenas por grandes golpes de força, mas também pela lenta naturalização das proximidades entre poder político e poder econômico”.
No fim das contas, a impessoalidade não é apenas um princípio jurídico: é uma forma de vigilância moral da própria República.
Porque, em um mundo onde vigaristas podem usar gravatas de seda e discursos refinados, o Estado precisa manter sempre a mesma distância — elegante, institucional e, sobretudo, desconfiada.


