Entre telefonemas diplomáticos e agendas que parecem fugir como sabão molhado, o chanceler Mauro Vieira discou para Washington neste domingo (8) para alinhar a tão aguardada visita de Lula à Casa Branca.

Do outro lado da linha, o secretário de Estado Marco Rubio ouviu não apenas os detalhes do possível encontro entre o presidente brasileiro e Donald Trump — ainda à procura de um espaço na agenda —, mas também um pedido delicado: que os Estados Unidos resistam à tentação de carimbar facções brasileiras como PCC e Comando Vermelho com o selo internacional de “terrorismo”.
Ao receber o rótulo de terrorismo, uma organização passa a ser alvo de um poderoso aparato jurídico e financeiro global. Bancos podem bloquear transações, ativos são congelados, empresas evitam qualquer relação comercial e governos passam a cooperar sob protocolos mais rígidos de segurança internacional. Em termos simples, o crime deixa de ser apenas um problema doméstico e passa a ser tratado como ameaça geopolítica.
Se as instituições são os muros que protegem a ordem pública, o que acontece quando alguns dos que administram esses muros começam, discretamente, a negociar com quem vive do outro lado deles?
Em suma, um diálogo típico da diplomacia contemporânea: enquanto se tenta marcar café com Trump, discute-se também como evitar que o crime organizado brasileiro ganhe um upgrade semântico no vocabulário geopolítico.
A infiltração do crime organizado nas instituições públicas raramente ocorre de forma ruidosa. Não há sirenes, perseguições ou cenas cinematográficas.
Ela costuma preferir os corredores silenciosos do poder, os gabinetes climatizados e o discreto vocabulário burocrático das decisões administrativas. O crime contemporâneo aprendeu que, em certas circunstâncias, é muito mais eficiente habitar o sistema do que enfrentá-lo.
Quando redes criminosas conseguem estabelecer vínculos com estruturas do Executivo, Legislativo ou Judiciário, o problema deixa de ser apenas policial.
Torna-se estrutural.
Políticas públicas podem ser distorcidas, decisões regulatórias contaminadas e processos judiciais transformados em arenas onde interesses ilícitos buscam proteção institucional. O impacto se espalha pela economia, pela política e pela própria confiança social nas instituições.
O sociólogo Zygmunt Bauman observava que, na modernidade líquida, as instituições muitas vezes perdem sua solidez moral e se tornam vulneráveis a redes difusas de poder e influência.
O crime organizado, altamente adaptável, prospera exatamente nesses ambientes ambíguos. Ele não precisa destruir o Estado; basta aprender a circular dentro dele.
Algo semelhante apontou Manuel Castells, ao descrever a sociedade em rede.
Para ele, organizações criminosas modernas operam como verdadeiras corporações transnacionais: flexíveis, conectadas e capazes de explorar lacunas entre sistemas políticos e econômicos.
Nesse cenário, dinheiro ilícito, poder político e influência institucional passam a compartilhar o mesmo ecossistema — um arranjo que costuma produzir efeitos particularmente corrosivos.
A criminologia há muito alertou para esse fenômeno. Edwin Sutherland, ao formular a teoria do crime de colarinho branco, demonstrou que alguns dos crimes mais danosos à ordem econômica não nascem nas margens da sociedade, mas no interior de estruturas respeitáveis de poder.
Como ironizam muitos criminologistas, o perigo nem sempre veste capuz; às vezes veste terno e gravata.
Quando organizações criminosas atingem escala transnacional — controlando rotas internacionais, movimentando bilhões em fluxos financeiros e exercendo poder territorial — surge um debate inevitável: devem ser tratadas apenas como crime organizado ou também como ameaça à segurança internacional?
É nesse ponto que entra a discussão sobre a eventual classificação de grupos como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos Estados Unidos.
Esse enquadramento não é apenas simbólico.
Ao receber o rótulo de terrorismo, uma organização passa a ser alvo de um poderoso aparato jurídico e financeiro global. Bancos podem bloquear transações, ativos são congelados, empresas evitam qualquer relação comercial e governos passam a cooperar sob protocolos mais rígidos de segurança internacional. Em termos simples, o crime deixa de ser apenas um problema doméstico e passa a ser tratado como ameaça geopolítica.
O criminologista Federico Varese, estudioso das máfias globais, observa que o crime organizado moderno se comporta cada vez mais como uma empresa transnacional clandestina. Quanto mais internacionalizada se torna sua atuação, mais insuficientes se tornam respostas estritamente nacionais. O problema, como frequentemente ocorre, é que a política costuma reagir mais lentamente do que o crime se adapta.
Nesse contexto, a classificação como terrorismo funciona como um grande holofote internacional. Ela ilumina redes financeiras, conexões políticas e circuitos econômicos que muitas vezes permanecem invisíveis dentro das fronteiras nacionais. Para alguns governos, isso representa cooperação estratégica; para outros, um constrangimento diplomático nada confortável.
O sociólogo Ulrich Beck, ao falar da sociedade de risco, lembrava que certos perigos contemporâneos ignoram fronteiras. Dinheiro ilícito, armas, drogas e influência política circulam com enorme fluidez no mundo globalizado. Quando um Estado não consegue conter plenamente essas dinâmicas, outras potências inevitavelmente passam a observar — e às vezes agir.
A ironia final é quase filosófica.
O Estado moderno foi concebido, como lembrava Norbert Elias, para monopolizar legitimamente o uso da força e garantir a ordem social.
No entanto, quando redes criminosas começam a penetrar suas próprias engrenagens institucionais, instala-se um paradoxo curioso: o sistema encarregado de combater o crime passa a conviver, em certos cantos discretos, com sua presença.
E assim surge uma pergunta incômoda para qualquer democracia: se as instituições são os muros que protegem a ordem pública, o que acontece quando alguns dos que administram esses muros começam, discretamente, a negociar com quem vive do outro lado deles?


