
Vivemos em uma era marcada pela sobreposição das aparências ao ser, onde o “parecer” muitas vezes suplanta o “ser” e obscurece o “dever-ser”.
A sociedade contemporânea, hiperconectada e saturada de imagens, exige não apenas que sejamos, mas sobretudo que aparentemos ser — bem-sucedidos, felizes, produtivos.
Como escreveu Jean Baudrillard, “a realidade cede lugar ao simulacro”; o real é substituído por representações que se impõem como mais reais que o próprio real.
Nesse contexto, o sujeito moderno é convocado constantemente à performance de si.
O pensador Byung-Chul Han, ao refletir sobre a sociedade do desempenho, afirma que “o sujeito de desempenho é ao mesmo tempo vítima e algoz”.
Vivemos sob a tirania da autoexposição e da positividade, onde o fracasso é internalizado como culpa individual, e não como expressão de contradições sistêmicas.
O “ser”, entendido como identidade autêntica, torna-se fluido e fragmentado, uma construção instável que se molda aos imperativos sociais.
O “parecer”, por sua vez, assume um protagonismo inquietante — como diria Erving Goffman, todos atuamos em palcos sociais, encenando papéis para sermos aceitos e reconhecidos.
A verdade de si é muitas vezes sufocada pela necessidade de pertencimento e validação.
Por fim, o “dever-ser”, que outrora apontava para ideais éticos e projetos coletivos, se dilui em prescrições neoliberais de produtividade e autoaperfeiçoamento. A ética se torna técnica, o cuidado de si (Foucault) é absorvido pela lógica do capital.
Nesse entrelaçamento tenso entre ser, parecer e dever-ser, resta ao indivíduo o desafio da autenticidade.
Talvez, como propõe Carl Rogers, o caminho esteja na congruência — a busca por alinhar o que somos, sentimos e expressamos, em um movimento existencial de reintegração da subjetividade frente às pressões do mundo.
A pergunta que se impõe é: quem somos quando não estamos tentando ser alguém para os outros?


