Um amplo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado no prestigiado British Journal of Sports Medicine (BJSM) — uma das revistas mais influentes da medicina esportiva mundial — reacende o debate sobre a presença de atletas trans em competições esportivas.

A metanálise, considerada a revisão mais abrangente já realizada sobre o tema, reuniu dados de 52 estudos e 6.485 participantes, analisando composição corporal, força física e capacidade aeróbica na comparação entre pessoas cisgênero e transgênero, e coloca em xeque a ideia amplamente difundida de vantagem atlética automática.
As conclusões principais apontam que, embora mulheres trans mantenham uma maior massa magra, sua aptidão física – força e capacidade aeróbica – é semelhante das mulheres cis.
A pista, o campo e a quadra tornam visível aquilo que a filosofia sempre soube — que a justiça não consiste em negar as diferenças, mas em reconhecer seus limites para que a competição continue sendo, acima de tudo, um encontro legítimo entre talentos humanos.
O esporte moderno nasceu sob um princípio aparentemente simples: a busca pela competição justa.
Entretanto, quando se observam as bases biológicas do desempenho humano, percebe-se que a ideia de igualdade absoluta no campo esportivo é, antes de tudo, uma construção regulatória que tenta equilibrar diferenças naturais profundas.
Entre elas, destacam-se as diferenças fisiológicas entre homens e mulheres — diferenças que moldam não apenas o desempenho atlético, mas também a própria arquitetura das competições.
Do ponto de vista biológico, homens e mulheres apresentam distinções claras em massa muscular, densidade óssea, níveis hormonais e capacidade cardiorrespiratória.
O endocrinologista e pesquisador Eric Vilain, especialista em biologia do sexo e gênero, observa que “a testosterona desempenha um papel central no desenvolvimento da força e da massa muscular, o que historicamente levou à separação das categorias esportivas por sexo biológico”.
Essa distinção não é fruto de convenção cultural apenas; ela emerge de evidências acumuladas ao longo de décadas de fisiologia do exercício.
Estudos em medicina esportiva indicam que, em média, homens possuem cerca de 30% a mais de massa muscular na parte superior do corpo e níveis de testosterona significativamente superiores aos das mulheres, fatores que impactam diretamente força, velocidade e potência.
O fisiologista Ross Tucker, pesquisador da Universidade da Cidade do Cabo e especialista em ciência do esporte, sintetiza a questão de maneira direta: “as categorias femininas foram criadas para compensar vantagens biológicas associadas à puberdade masculina”. Em outras palavras, a divisão por sexo no esporte não surgiu como exclusão, mas como mecanismo de equilíbrio competitivo.
O filósofo do esporte Sigmund Loland, da Norwegian School of Sport Sciences, lembra que a justiça esportiva não significa eliminar todas as diferenças, mas administrar aquelas que comprometem a competição.
Segundo ele, “o esporte busca igualdade de oportunidade dentro de limites biológicos razoáveis; quando diferenças naturais se tornam determinantes, surgem categorias para preservar o equilíbrio”. Assim nasceram divisões por peso no boxe, idade em diversas modalidades e sexo em praticamente todos os esportes.
Por outro lado, o debate contemporâneo amplia essa discussão ao incorporar questões de identidade e inclusão.
A bioeticista Katrina Karkazis, pesquisadora da Universidade Yale, observa que “o desafio atual é encontrar modelos regulatórios que respeitem a dignidade das pessoas sem ignorar os dados fisiológicos que estruturam o esporte”.
O dilema, portanto, não é apenas científico, mas também moral e institucional.
No fundo, o esporte espelha um paradoxo humano: buscamos igualdade enquanto habitamos corpos profundamente distintos.
A pista, o campo e a quadra tornam visível aquilo que a filosofia sempre soube — que a justiça não consiste em negar as diferenças, mas em reconhecer seus limites para que a competição continue sendo, acima de tudo, um encontro legítimo entre talentos humanos.


