Entre cifras, expectativas e o sempre delicado equilíbrio das contas públicas, o funcionalismo estadual de Alagoas recebe um aceno que mistura alívio e prudência.

O governador Paulo Dantas decidiu encaminhar à Assembleia Legislativa um projeto de lei que propõe reajuste salarial de 6% para todos os servidores — uma medida que, se por um lado não reescreve a história das perdas inflacionárias, por outro sinaliza reconhecimento em tempos de contenção.
O texto, já protocolado na Casa de Tavares Bastos, carrega um detalhe que não passa despercebido: o reajuste virá inteiro, sem os habituais recortes ou parcelamentos que diluem promessas no tempo.
Caso aprovado, o aumento será sentido de imediato no contracheque — um raro instante em que a política abandona o futuro abstrato e se materializa no presente concreto.
Há um equívoco recorrente — quase confortável — em tratar o trabalho apenas como engrenagem e o trabalhador como peça substituível.
No entanto, como já advertia Karl Marx, “o trabalho não é apenas meio de vida, mas a própria atividade vital do homem”. Negligenciar sua justa remuneração não é apenas um erro econômico; é, antes de tudo, uma distorção ética que corrói silenciosamente a dignidade humana.
A valorização salarial, nesse contexto, deixa de ser um gesto administrativo e passa a ser um ato de reconhecimento. Adam Smith, frequentemente invocado como patrono do liberalismo econômico, já observava que “o salário justo é condição essencial para a prosperidade de uma nação”.
Não se trata de benevolência estatal ou empresarial, mas de um princípio de equilíbrio: onde o esforço é reconhecido, a motivação floresce; onde é ignorado, instala-se a apatia — e, com ela, a erosão da qualidade, da criatividade e do compromisso.
O filósofo Axel Honneth, ao analisar a teoria do reconhecimento, argumenta que o indivíduo só se realiza plenamente quando percebe que sua contribuição possui valor social.
O salário, nesse sentido, não é apenas cifra: é linguagem simbólica. Ele afirma, ainda que silenciosamente, se aquele trabalho importa ou não. E o trabalhador, longe de ser insensível a isso, internaliza essa mensagem em sua forma de agir, produzir e até de existir.
Não por acaso, Friedrich Nietzsche, com sua habitual acidez, insinuava que “aquele que tem um ‘porquê’ suporta quase qualquer ‘como’”.
Mas até mesmo o “porquê” se desgasta quando o “como” se torna sistematicamente injusto. Sem valorização concreta, o sentido do trabalho se esvazia — e o desempenho, inevitavelmente, o acompanha nesse declínio.
Valorizar salarialmente, portanto, não é apenas pagar mais: é afirmar pertencimento, é reconhecer esforço, é sustentar a engrenagem invisível que mantém instituições e sociedades em movimento.
Ignorar isso é apostar em um modelo que cobra excelência enquanto entrega desvalorização — uma contradição que, cedo ou tarde, revela seu custo.


