No teatro previsível da política, a maior surpresa foi justamente a ausência dela: Ratinho Júnior entrou em cena para anunciar que não entraria em cena.

Entre cálculos familiares, prudências partidárias e silêncios eloquentes, confirmou-se o óbvio — às vezes, o movimento mais estratégico é permanecer imóvel, ainda que sob o aplauso morno de quem já conhecia o roteiro.
Ao fundo, o palco já não está vazio.
Além do Presidente Lula, também podem ser candidatos a presidente da República o senador Flávio Bolsonaro (PL), o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), Ciro Gomes (PSDB), Eduardo Leite (PSD), Rui Costa Pimenta (PCO), Cabo Daciolo (Sem partido) e Renan Santos (Missão).
Outras candidaturas, mais ou menos assumidas, mais ou menos disfarçadas, seguem se delineando com a familiar coreografia eleitoral: nomes que não dizem que são, mas agem como se já fossem; projetos que negam ambição enquanto medem força; discursos que oscilam entre a negação tática e a afirmação inevitável.
No Brasil, a pré-campanha raramente começa — ela apenas deixa de fingir que não existe.
A corrida presidencial não começa no calendário — começa no imaginário.
Antes de qualquer anúncio formal, ela já pulsa nos bastidores, nas entrelinhas dos discursos, na coreografia calculada dos gestos públicos. É uma maratona que se disfarça de sprint: exige fôlego de longo prazo, mas cobra resultados imediatos, como se o tempo político obedecesse à ansiedade coletiva.
Os obstáculos não são apenas adversários, mas o próprio terreno movediço da opinião pública, onde convicções se dissolvem com a mesma rapidez com que são proclamadas.
Promessas precisam sobreviver ao desgaste da repetição; biografias são reescritas à luz de conveniências; e a coerência, muitas vezes, torna-se um luxo incômodo.
Como advertia Max Weber, “quem faz política pactua com potências diabólicas” — não no sentido místico, mas na inevitável negociação entre ética de convicção e ética de responsabilidade.
Nesse percurso, o eleitor não busca apenas um gestor, mas uma figura que encarne algo maior — quase um arquétipo.
Há, na expectativa popular, um traço persistente de idealização: deseja-se o líder firme, mas sensível; pragmático, mas íntegro; próximo, mas acima das misérias comuns.
Uma síntese improvável que revela menos sobre o candidato e mais sobre a carência coletiva por ordem, sentido e direção. Nietzsche, com sua lucidez desconcertante, já insinuava esse impulso ao afirmar que “em todo ideal há tanto de desejo quanto de ilusão”.
E é justamente nesse ponto que a corrida se torna existencial.
Não se trata apenas de vencer uma eleição, mas de sustentar — ainda que provisoriamente — a projeção de um país inteiro sobre uma única figura.
O risco, quase inevitável, é a frustração: porque nenhum indivíduo real é capaz de corresponder integralmente ao personagem que dele se espera.
Assim, a cada novo ciclo eleitoral, repete-se um ritual silencioso: a construção de um líder imaginário, seguido de sua inevitável desconstrução.
E, no intervalo entre uma e outra, permanece a pergunta que raramente se admite em voz alta — buscamos, de fato, governantes… ou apenas versões mais organizadas das nossas próprias expectativas?


