Entre metáforas de futuro e números que insistem em pesar no presente, o governo federal acena com um novo capítulo para os estudantes endividados.

Em agenda no interior paulista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende incluir os beneficiários do FIES nos programas de renegociação de dívidas da União — uma tentativa de reequilibrar contas sem sufocar sonhos.
Durante a inauguração de um campus do Instituto Federal em Sorocaba, Lula reconheceu o paradoxo: o Estado que se colocou como fiador do acesso ao ensino superior agora observa o crescimento da inadimplência entre jovens que apostaram na educação como passaporte social.
Ao dirigir-se ao ministro da Educação, Leonardo Barchini, o presidente admitiu o desafio e sinalizou uma solução: renegociar para não desistir.
A proposta, ainda em construção, carrega um simbolismo potente — o de um país que, ao mesmo tempo em que financia diplomas, precisa aprender a sustentar as promessas que faz a quem decide estudar.
Afinal, como sugeriu o próprio presidente, dívida nenhuma deveria ser grande o suficiente para interditar o futuro.
O FIES não é apenas uma política pública; é, em muitos sentidos, uma aposta civilizatória.
Ao financiar o acesso ao ensino superior, o Estado não apenas empresta dinheiro — ele, como diria Amartya Sen, “expande as capacidades reais das pessoas de serem e fazerem aquilo que valorizam”.
Trata-se de deslocar indivíduos da margem para o centro da vida econômica e social, ainda que esse deslocamento venha acompanhado de um preço que, por vezes, cobra seu tributo no futuro.
Pierre Bourdieu já advertia que a educação é um dos principais mecanismos de reprodução — ou de ruptura — das desigualdades.
O FIES, nesse cenário, tenta tensionar essa lógica ao oferecer capital educacional àqueles historicamente excluídos. É uma engrenagem imperfeita, sem dúvida, mas que insiste em contrariar o determinismo social que condena tantos à repetição de suas origens.
Afinal, como bem observou o sociólogo francês, “o capital cultural pode funcionar como uma moeda invisível que decide destinos” — e o FIES, ainda que tardiamente, distribui algumas dessas moedas.
No entanto, há uma ironia silenciosa nesse processo. Zygmunt Bauman lembraria que vivemos em tempos líquidos, onde conquistas individuais frequentemente vêm acompanhadas de inseguranças estruturais.
O diploma, antes promessa quase linear de ascensão, hoje disputa espaço com mercados instáveis e oportunidades escassas. O estudante financiado, então, torna-se também um devedor — alguém que carrega, simultaneamente, o símbolo da conquista e o peso da obrigação.
“A vida líquida é uma sucessão de reinícios”, escreveu Bauman, e talvez o FIES seja exatamente isso: um recomeço financiado, mas não garantido.
Ainda assim, negar sua importância seria ceder ao cinismo fácil.
O acesso ao ensino superior continua sendo um dos mais poderosos vetores de mobilidade social disponíveis.
Como sustenta o economista Thomas Piketty, “a educação é, a longo prazo, a principal força de redução das desigualdades” — desde que acompanhada de políticas que não abandonem o indivíduo após a formatura.
O FIES, portanto, não deve ser visto apenas como crédito, mas como ponte. Uma ponte que liga o improvável ao possível, o invisível ao reconhecido, o silêncio à voz.
E, como toda ponte, exige manutenção, responsabilidade e, sobretudo, a consciência de que permitir a travessia é mais do que um ato econômico — é um gesto profundamente humano.


