Em meio ao crescente debate sobre transparência e limites éticos no Judiciário, um gesto silencioso ganhou significado simbólico. A filha e o genro do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, decidiram encerrar as atividades do escritório de advocacia que mantinham no Paraná, especializado em contencioso.

A decisão, comunicada no mês passado, ocorre justamente enquanto ganha força a discussão pública sobre a criação de um Código de Ética específico para ministros da Corte.
Segundo a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, Melina Fachin e Marcos Gonçalves formalizaram o fechamento do escritório em meio a questionamentos sobre a atuação profissional de familiares de magistrados que orbitam os tribunais — um tema que volta a iluminar o delicado equilíbrio entre legalidade, prudência e aparência de imparcialidade nas altas esferas do Judiciário.
Há momentos em que um gesto administrativo, aparentemente discreto, assume um peso simbólico que ultrapassa a própria decisão prática.
O encerramento do escritório de advocacia mantido pela filha e pelo genro do presidente do Supremo Tribunal Federal ocorre nesse território delicado onde a ética institucional não se mede apenas pela legalidade, mas também pela percepção pública.
Em instituições que dependem da confiança coletiva, a aparência de imparcialidade pode ser tão relevante quanto a própria imparcialidade.
Max Weber lembrava que a autoridade das instituições modernas repousa na crença social na legitimidade de suas regras e de seus guardiões.
Quando essa crença vacila, o poder formal permanece, mas sua força moral se enfraquece. Por isso, em contextos de questionamento, gestos de cautela e distanciamento simbólico costumam funcionar como sinais de preservação do capital institucional — um esforço para manter intacta a confiança que sustenta o edifício democrático.
Norberto Bobbio, ao refletir sobre a ética pública, advertia que “o problema do poder não é apenas exercê-lo corretamente, mas fazê-lo de modo que pareça correto aos olhos da sociedade”.
A frase não sugere submissão à opinião volátil, mas reconhece que a legitimidade das instituições nasce de um pacto invisível entre autoridade e confiança. Quando esse pacto se rompe, abre-se espaço para a suspeita — e a suspeita, na esfera pública, costuma ser mais corrosiva do que o próprio erro.
Nesse sentido, a decisão de encerrar as atividades do escritório pode ser lida como um gesto de prudência institucional.
Não resolve, por si só, o debate sobre regras e limites para familiares de magistrados, mas dialoga com uma dimensão essencial da vida pública: o reconhecimento de que a integridade das instituições é também construída por símbolos.
Hannah Arendt observava que as instituições são frágeis porque dependem de algo imaterial: a confiança. “O poder”, escreveu ela, “surge quando as pessoas agem juntas e desaparece quando elas se dispersam.”
Em democracias, essa ação conjunta se sustenta na crença de que as regras valem para todos e de que aqueles que ocupam posições de autoridade compreendem o peso de seus próprios gestos.
Por isso, às vezes, a preservação da credibilidade institucional não acontece apenas nos grandes julgamentos ou nas decisões históricas, mas também nos pequenos movimentos de recuo, prudência e silêncio — aqueles que reafirmam, ainda que de maneira indireta, que o prestígio das instituições públicas continua sendo um patrimônio coletivo que precisa ser permanentemente protegido.


